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Monday, September 6, 2010

O que significa a música lusófona para ti? Como a sentes? - Por Ariel de Bigault

Há dias pedi a Marta Lança, editora do Buala, site de cultura contemporânea africana, que me desse o seu palpite nesta já conhecida questão para os frequentadores deste espaço. Antes de me dar a sua resposta, a Marta enviou-me os pensamentos da Ariel de Bigault, escritora, documentarista e musicóloga francesa que fez muitos trabalhos de recolha de música popular angolana e caboverdiana e que foi também uma "grande impulsionadora da cultura lusófona numa altura que ainda ninguem valorizava isso". Segue então a 'resposta' da Dona Ariel, que vem de um interessantíssimo artigo escrito em 2001 e que o leitor poderá ler na íntegra no Buala:

Será a “lusofonia” acima de tudo musical?

"Para lá da língua, há um parentesco evidente que remonta ao tempo da colonização, com essas músicas “pré-urbanas” que se tocavam nas plantações. Os guitarristas nem sequer têm necessidade de se harmonizarem em conjunto, quer venham de Portugal, de Angola, do Brasil, de Cabo Verde ou de Moçambique. Está-se numa situação muito diferente da francofonia: quando um Higelin ou um Lavilliers fazem música com africanos, isso é sentido como um passo voluntarista, experimental, quase político, enquanto no mundo lusófono esta “mestiçagem musical” é absolutamente natural, é um assunto resolvido há pelo menos um século. E isto é tanto mais verdadeiro no que diz respeito aos angolanos, porque o seu património musical ligado a rituais de iniciação, foi apagado pela colonização e a evangelização, e ainda sofreu muito das devastações da guerra de independência e dos confrontos armados que duraram até 2002. Mesmo o lamelofone likembe e o xilofone marimba, que eram verdadeiramente instrumentos nacionais, estão em vias de desaparecimento. Actualmente, os xilofones são importados de Moçambique ou do Zimbabué harmonizados segundo escalas ocidentais, para poderem ser associados às guitarras. O MPLA foi fundado por poetas e intelectuais como Agostinho Neto, mas hoje não parece dar importância à cultura enquanto expressão autêntica e livre da identidade do povo."

-Photo by Pimpo79

Saturday, August 28, 2010

O que significa a música lusófona para ti? Como a sentes? - Por Ngoi Salucombo, Escritor/Fotógrafo

A diáspora é uma sensação esquisita!

Foi na diáspora que despertei para muitas coisas entre elas a música lusófona, aliás, arrisco mesmo em dizer que para muitos angolanos da minha geração, foi na diáspora que descobrimos a beleza da música cantada e tocada em português.

Com excepção da música portuguesa e alguns pedaços das musicas das novelas brasileiras, lembro que na minha infância, não se ouvia sons de Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique ou São Tome e Príncipe... na Rua Comandante N´zaji, que foi onde nasci e cresci, era apenas a música angolana que fazia parte das nossas vidas... músicos como Mamborro, Lucas de Brito, Clélia Sambo e cotas como Waldemar Bastos, Lourdes Vandúnem ou Mário Rui Silva sempre estiveram presentes lá em casa.

À partir de algumas influências que sempre vou agradecer, foi já na adolescência que descobri os U2, Madonna, Depeche Mode ou a Cyndi Lauper que foi um dos grandes amores da minha vida. Para um país fechado para o mundo como era Angola, o inglês surgiu-nos de alguma maneira como desenvolvimento e talvez por isso, ouvir uma cassete de música no walkmen cantada em português, era sinal de caretisse.

Para um jovem que nunca tinha saído de Angola, a diáspora foi o local de muitas descobertas, e foi nela também, que recomecei a escutar a música angolana. Na altura, Portugal era o ninho dos músicos que não encontravam cá ouvidos que escutassem as suas melodias...da mesma forma que os outros africanos da lusofonia faziam o mesmo com a sua música. Foi lá que pela primeira vez ouvi o Manecas Costa...foi na diáspora que conheci os Boy Gé Mendes e foi por lá também, que descobri que o Leandro e Leonardo não significavam música brasileira.

Infelizmente, foi com a distância que valorizei muito do que me é próximo, talvez por isso, hoje me sinta confortável em assumir que seria outra pessoa se nunca tivesse conhecido as vozes do outro lado que também são minhas... vozes como Seu Jorge, António Variações, Princezito, Sara Tavares, Cibelle, Gabriel Tchiema e tantas outras, que hoje, nos misturam e nos unem, mesmo que insistimos em não acreditar.

Este texto foi escrito sem o acordo ortográfico e ouvindo Aurora, com Waldemar Bastos e The London Symphony Orchestra

About Ngoi Salucombo:

Nestas andanças pela blogosfera angolana deparei-me com o oásis que são o Attelier das Mangueirinhas e o Portfólio Photografico, ambos do mano Ngoi. Descobri que somos os dois incorrígiveis apaixonados pela música, e nesta base a amizade surgiu naturalmente. Era constante vê-lo em actividades musicias em Luanda, tal como no concerto dos Afrologia no Elinga ou os Ecletismos Poéticos do Bahia. Colaboramos também na divulgação do Jazz Festival na blogosfera, eu com posts acerca dos artistas e ele com fotos dos cartazes dos mesmos espalhados por Luanda. Váris fotos do Ngoi também iluminam este espaço. Para os mais interessados, é possível apreciar as obras dele aqui, e ler o seu livro de contos aqui. Obrigado por este post, mano Salucombo!

Monday, August 23, 2010

O que significa a música lusófona para ti? Como a sentes? - Por Massalo Araújo, Fotógrafo

Waldemar BastosPara ser completamente sincero, a música lusófona provávelmente não tem o significado forte que tem para algumas pessoas da minha geração, visto que mais de 90% do que oiço diariamente é cantado noutra lingua senão o português.

Mas sei o que é ter saudades da minha cidade, com lágrimas nos olhos, quando o Paulo Flores começava a cantar o seu "já vi mar banhar a areia, em Luanda..."
Isto porque para mim, musica é memoria, sobretudo quando cantada na lingua que me viu a nascer.

About Massalo:

One of his favorite lusophone artists is Waldemar Bastos, in the title photo, and one of my favorite photos of his is the one directly above. After months of compulsive photo stealing from Massalo's Flickr page (many of his exquisite photographs grace this website), I finally got to meet the exciting photographer in person and can now call him a friend. You can spend hours going over his photos, and if you're busy right now, I thoroughly recommend a visit to his website as another way to procrastinate. You can read Massalo's blog and marvel at his work here, here and here. Oh, and here too.

-Photo by Massalo

What does Lusophone music mean to you? How do you feel it? - by Mike Stead, Author

Thanks for the invitation to write a few words for your site. I’m not sure that I could say anything eloquent about my rather eclectic and very dated taste in Lusophone music. My first exposure was to MPB in Brasil in the 80's, such as Cazuza, Legião Urbana, Renato Russo, Netinho, Titãs, Paralamas do Sucesso, Só para contrariar, Engenheiros de Havai, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Djavan, Elba Ramalho , Lulo Santos, Marisa Monte, Daniela Mercury, Caetano and Maria Bethânia. I still listen fondly to this stuff. I’m afraid things went downhill when I went to Portugal in the 90s and listened to boy bands such as Excesso, Anjos, and GNR with a bit of Mariza thrown in. Finally, my Angolan tastes are limited to the rather predictable Bonga, Waldemar Bastos and Ruy Mingas.

About Mike Stead:

Mike Stead is the co-author of the Bradt Guide to Angola. He's spent much of the last 30 years living and working overseas thanks to postings with the Diplomatic Service. He spent a year in Luanda as the Deputy Head of Mission and Consul at the British Embassy where he set about writing this guide with Sean Rorison. He wrote the background and practilaties chapters, the appendices and the sections on Luanda, Bengo, Kwanza Sul, Kwanza Norte, Malanje, Huíla, Benguela and Namibe, and co-wrote the sections on Lunda Norte and Lunda Sul with Sean. Mike's a fan of this site and enjoys a well made caipirinha! You can visit his blog here and read relevant updates to his guidebook.

Thursday, March 25, 2010

What does Lusophone music mean to you? How do you feel it? - By Philip Graham, Author

I have always loved Lusophone music, beginning with my discovery, decades ago, of the Brazilian singers Milton Nascimento and Djavan. But my deepest connection to the music began when, in the wake of my parents' deaths in the early 1990s, I first heard (at a Barnes & Noble listening booth) the Portuguese band Madredeus. The saudade of this music, I think without my consciously realizing it at the time, helped me with my mourning, helped me understand that a type of music could become a kind of emotional homeland, offering a different kind of citizenship. Its beauties led me and my family to live for a year in Lisbon

Lusophone music is virtually the only music I listen to now, whether it originates in Portugal, Brazil, Cape Verde, Angola or Mozambique. It's a music of great emotional complexity, a music in which joy doesn't deny the existence of sadness, and sadness doesn't erase the possibility of happiness. The multiple dimensions of its lovely ache, which both heals and wounds in stunning, acrobatic balance, has become a part of me.


About Philip Graham:

Besides being one of my brilliant sources on Lusophone music (it was from him that I learned about OqueStrada, Norberto Lobo, etc), Philip Graham is the author of short story collections, essays, prose poems, a memoir and a novel. His work has been published in the New Yorker, Paris Review, North American Review, the Washington Post, the New York Times and many other venues. His series of dispatches from Lisbon, which originally appeared at McSweeney's, have been recently published in an expanded edition as The Moon, Come to Earth (University of Chicago Press). Julia Keller, the Pulitzer Prize-winning journalist, has written "The Moon, Come to Earth is so enchanting: It dance and sighs. It twitches and hums and stumbles and then rights itself with a winning smile. It's like a living thing, filled with desire and uncertainty and joy and regret."

For more information and the latest news and updates, visit his website.

Monday, March 22, 2010

O que significa a música lusófona para ti? Como a sentes? - Por Aline Frazão (Kukiela), Cantora/Compositora

A música lusófona tem assinatura de sal e do movimento das suas gentes. Somos exploradores aventureiros, cruzamos continentes e cantamos a sentida saudade da nossa bwala ou das nossas mil bwalas. A nossa música é, portanto, como a língua que partilhamos, "plural e colorida", nos diferentes sotaques que saem dançando da boca. Com orgulho dizemos-nos da lusofonia mas não falamos só o português.

No batuque, na dikanza, no kissanje, na sanfona, na pandeireta, no cavaquinho, na marimba, na batida - somos vários e soamos um. Penduramo-nos nas cordas de uma guitarra portuguesa e montamos a casa em cima de um pandeiro. Juntando os umbigos com um semba, riscamos no salão uma coladera. No corpo os kalundus do Kuduro, na voz a ternura da bossa-nova. Somos Angola, Brasil, Cabo-Verde, Galiza, Goa, Guiné Bissau, Macau, Moçambique, Portugal e São Tomé e todos os que se embalem nesse barco que segue o Cruzeiro do Sul.

Kukiela

About Aline: She's been featured here in the Lounge before, and of course you can download her music and revel in her voice here. But Ikono over at "Musica, Alimento Pr'Alma" wrote a stunning post on Aline that's really worth reading (in Portuguese).

Sunday, March 21, 2010

O que significa a música lusófona para ti? Como a sentes? - Por Tiago, 340ml Guitarist

Para mim, muitas vezes associo mais música lusófona com África que com Portugal e a língua Portuguesa, não sei porquê. Se calhar é por ser Moçambicano e também estar mais relacionado com grupos Africanos que usam a língua Portuguesa para se exprimirem. Mesmo assim não oiço música cantada em Português assim tanto como gostaria. Na verdade acho que os Brasileiros, com a sua adaptação lusófona, conseguiram fortificar música na sua própria língua melhor que qualquer outro povo Lusófono. Eles também conseguiram estabelecer uma personalidade suficientemente forte para ter os ouvidos do mundo atentos. Outras culturas que se expressam em Português deviam apreender com eles. Pelo sim pelo não, existe algo muito especial e muito terno quando alguém, numa canção, se expressa em Português.

About Tiago Paulo: Tiago is 340ml's guitarist. His favorite song to play live is Australopithecus. You can read about this and other fun facts in the interview he gave to the Lounge.

-Photo by Represent.co.za

O que significa a música lusófona para ti? Como a sentes? - Por Mário Bastos, Cineasta

Para dizer a verdade hoje quando leio, ou ouço dizer Musica Lusófona penso logo no Caiprinha Lounge. Porquê? Porque este "pequeno" blog inaugurou exactamente a um ano atrás a casa perfeita no mundo web para a música Lusófona.

Esta música que está espalhada pelo os quatro cantos do mundo e que nos seus mais diversos sotaques e dialectos consegue encontra-se em palavras como saudade, para mim vai ter sempre um sabor a calulu de domingo. Passo a explicar. Como mangolé posso dizer, que já comi muito calulu em casa de amigos e restaurantes, mas para mim nenhum calulu bate mais como aquele que é feito todos os fins de semana lá no cubico dos meus kotas. É isso que a boa musica em português me traz que nenhum outra língua consegue. É um sabor especial. Um sabor único. Um sabor familiar. Um sabor a casa. Hoje um sabor a Caipirinha Lounge.

Arrepio-me a ouvir a "A Velha Chica," de Waldemar Bastos. Sorrio com "Vampiros," de Zeca Afonso. Revolto-me com "Como Nossos Pais," de Elis Regina e sinto saudades com "Manha de Domingo" de Ruca Van Dunem. Este são alguns dos muitos sentimentos e emoções que a música da minha "tribo" me traz. A minha tribo chamada lusofonia.

Obrigado Caipirinha Lounge.

Paz,

Mário Bastos

About Mario Bastos:

Mario Bastos was born and raised in Luanda, Angola. At the age of 12 Mario received his first still camera. At the age of 14, due to his interest in Photography, a well-known Photographer/Filmmaker named Victorio Henriques saw the passion that drove Mario and took him in as his protégé. Mario attended Photography classes at Escola Portuguesa de Luanda High School. Due to Mario's determination, Victor, being a photography teacher at E.P.L., allowed him to take classes even though he wasn't of age yet.

Once Mario became officially enrolled in The Arts Program, he was successful in winning several Photography Awards. Mario developed an interest in turning his photos into movies by creating stories for each picture. At the age of 16 Mario decided he wanted to become a Filmmaker and move to New York City to reach his goals. One of Mario's main goals is to broaden Angola to the rest of the world and bring back film culture to his country. His first year in the city he attended E.F. International Language School, and interned at a Film Production Company.

He met a student from the New York Film Academy, which he would later attend, and began to work on other students’ films, while not being enrolled as an official student. In 2006 he Graduated from the Directing Program at NYFA with a successful award winning short film titled “Kiari.” Although at the moment Mario is enrolled in The Motion Picture & Television Program at Academy of Art University in San Francisco, California, he stills works in a variety of film projects in the U.S. and in Angola. His most recent short-film, "Alambamento," just wrapped principal photography in Luanda and is right now in post-production in San Francisco.

-Biography by Scott Perkins

Link to Alambamento beneath "Caipirinha Lounge Endorses", on the right hand side

O que significa a música lusófona para ti? Como a sentes?

Esta pergunta foi feita à várias personagens do mundo artístico lusófono e não só. Personagens que sentem a música como se sente aqui no Lounge. Durante os próximos dias, o Lounge ‘postará’as suas respostas, as suas maneiras de sentir a música. Finalmente poderemos ler outras vozes neste site, sem ser a minha ;) !

What does Lusophone music mean to you? How do you feel it? This question was asked to various personalities within the Lusophone world. Personalities that feel Lusophone music as it's felt here in the Lounge. During the next few days, I'll be posting their thoughts and musings on music. Finally another voice here besides my own ;) !

-Photo by Pimpo79
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