Thursday, February 16, 2012

Trails and Ways goes Brazilian

I get an incredible amount of music sent to me; the vast majority isn't even in Portuguese. The people that send them rarely bother to look at the type of music the Lounge plays. But once in a while a kind, musical soul will actually send something worthwhile. Something worth listening to. Something in Portuguese, or inspired by the Lusophone culture and way of living. That's exactly what happened with Keith and his band Trails and Ways. They hail from Oakland but they sing in English with a bit of Portuguese here and there, testament to the musical inspiration acquired while they spent some time living in Fortaleza, Brazil. Bossa nova dream folk, they like to call it. The two songs featured here, One Note, inspired by Samba de Uma Nota Só, and Bimbom, which dispenses introduction, are from two EPs of theirs, Temporal and Territorial, respectively. Serve chilled and enjoy.

One Note
Bimbom

Ao longo destes anos tenho recebido uma quantidade incrível de música das mais diversas fontes, e a vasta maioria nem sequer era em português. Pelos vistos as pessoas que as mandam não fazem a mínima ideia do tipo de música que o Lounge toca. Mas de vez em quando, recebo pérolas musicais de gente que respira arte. Pérolas em português, ou inspiradas pela cultura e o sentimento artístico lusófono. Foi exactamente o que aconteceu com o Keith e a sua banda, Trails and Ways. São da zone de São Francisco mas viveram alguns meses em Fortaleza, de onde beberam uma dose saudável da vivência brasileira. Quando voltaram para os States até já conseguiam arranhar um certo português, como se escuta nas suas músicas. A sua sonoridade eles chamam de bossa nova dream folk. As duas músicas destacadas aqui, One Note (inspirada por Samba de Uma Nota Só) e Bimbom, que dispensa introduções, podem ser encontradas nos seus EPs Temporal e Territorial, respectivamente. Boa escuta.

http://trailsandways.com/

Tuesday, February 14, 2012

Caipirinha Lounge Cinema: Sintam o Kamun'dongo!

The Lounge has been feeling the Kamun'dongo for quite some time now. The rapper you hear in the video below is called Mona Dya Kidi and has been featured in the Lounge before, most notably at the time when I couldn't get enough of his jam TPA - Todos Por Angola, one of the top songs I've featured on this blog's relatively short history. The video below, Sintam o Kamun'dongo, is his first one. Enjoy the voice, charisma and lyricism of a rapper who's following in the steps of MCK.


O Lounge já anda a sentir o Kamun'dongo há muito tempo! O rapper que se ouve e vê no vídeo acima chama-se Mona Dya Kidi e já se ouviu por estas bandas, principalmente na época em que eu não conseguia parar de ouvir o seu som TPA - Todos por Angola, um dos melhores sons que alguma vez postei na relativamente curta história deste blog. O vídeo acima, Sintam o Kamun'dongo, é o seu primeiro. Espero que curtem a mensagem, o carisma e o liricismo de um rapper consciente que está a seguir as pegadas do MCK.

Thursday, February 2, 2012

Nó Na Orelha, by Criolo

Photo by SESC Sorocaba
Officially, Criolo is a rapper. Unofficially he is a bit of everything else. An ex-teacher who still lives in his favella (Grajaú), his album is a buffet of different sounds and flavors, including samba, MPB, soul, reggae, and more. As soon as I heard the first notes of his album opener, Bogotá, I knew I was in for something special, something different. I approached the album blindly - it wasn't until later in my listening experience that I realized I was listening to a proper rapper, who's been active in São Paulo's hip-hop scene for more than a decade. How could I have known? Bogotá is an infectious afro-beat reminiscent of Cacique '97 and maybe even a bit of Kuti in which Criolo, born Kleber Gomes, sings like a soulful crooner.

Nó na Orelha is Criolo's second album, and what an eclectic album it is. Take, for instance, Subirusdoistiozin, a laid back, chilled track that at first listen might seem out of place in a rapper's album. But that's the thing...unless you approach the album with an open mind and get rid of any preconceived notions, you'll be hard-pressed to get past the fact that this Paulista rapper can sing, and sing well. His music has soul, strength, and sophistication: it is a poignant, personal perspective on the new São Paulo and, more broadly, the new Brazil, with all its inequalities and contradictions. But it also has attitude. Sucrilhos is perhaps the track where he best stakes his claim as a skillful lyricist and showcases his verve and charisma. If I had found out about this man sooner I would of seen him live at Nublu; for now, all I can do is content myself with hearing him at my house. Which is precisely what I've been doing recently - drinking in the lyrics and getting to know Brazil through the incredible music of one of its sons.

I'll leave you with Não Existe Amor em SP (Love doesn't exist in São Paulo).

P.S. Get his album for free straight from his website. You have to.

Bogotá
Sucrilhos
Não Existe Amor em SP

Oficialmente, o Criolo é um rapper. Não oficialmente, ele é de tudo um pouco. É, por exemplo, um ex-professor paulista que ainda vive na favela que o viu nascer, mais conhecida como Grajaú. O seu álbum é um buffet de diferentes sons e sabores, incluindo samba, MPB, soul, reggae, e mais, muito mais. Logo que ouvi as primeiras notas do primeiro som do disco, Bogotá, sabia que estava diante de algo especial, algo diferente. Obtive o álbum sem antes ouvir uma única música - só depois, já varios sons adentro, é que finalmente reparei que estava a custar a poesia de um rapper. E não um rapper qualquer, mais sim um rapper paulista que anda nessa vida há mais de 10 anos. Como poderia saber disso, quando a minha introdução ao seu universo musical foi logo Bogotá, um afro-beat que faria o Fela Kuti sorrir e os Cacique '97 dançar? Um afro-beat em que o Criolo canta que nem um ícone de soul?

Nó na Orelha é o segundo álbum do Criolo. E é ecletismo do bom, do puro. Escute, por exemplo, Subirusdoistiozin, um som relaxado, leve, que à primeira vista parece não ter espaço num 'álbum de rap'. Mas este é mesmo o ponto...ao menos que encare o álbum de uma forma aberta, sem preconceitos, não compreenderá como é que um rapper consegue cantar, e cantar bem. A sua música tem alma, força, e sofisticação: é uma perspectiva complexa e pessoal do novo São Paulo em particular e o novo Brasil em geral, com todas as suas desigualdades e contradições. Mas é também música com atitude. Sucrilhos é talvez o som em que as virtudes do seu liricismo, carisma e habilidade vêm mais à tona. Se conhecesse a música dele antes, iria ter lhe visto no Nublu, aqui em New York; agora, só me resta ouvir-lhe do meu stéreo aqui mesmo em casa. E é precisamente o que tenho feito últimamente - bebendo das suas letras e conhecendo o Brasil um pouco mais, pela música de um dos seus filhos.

Deixo-vos, então, com Não Existe Amor em SP.

P.S. O álbum dele está disponível no seu webite. Grátis. Não tem como não pegar.

Monday, January 23, 2012

6tacool by Coca o FSM: Tass Bem, Pass Bem

After a football-filled day replete with all the raw emotions that accompany them, I'm retiring to bed with Coca o FSM echoing in my ears. Tass Bem, Pass Bem. You know the man, you know the drill. Happy Monday.

Tass Bem, Pass Bem

Depois de um dia recheado de futebol e as fortes emoções que o acompanham, retiro-me para a cama com Coca o FSM nos ouvidos. Tass Bem, Pass bem. E boa semana que vem.

Sunday, January 22, 2012

Caipirinha Lounge Cinema: Brown Skin Guy

This is the first single off The Grasspoppers brilliant new CD, Lovers Rock Inna Week, featuring the captivating Mozambican Selma Uamusse. The video was released three days ago on The Grasspoppers blog, Afro Lx, and captures images of the crew in concert.

Este é o primeiro single do brilhante novo CD dos Grasspoppers, Lovers Rock Inna Week, e conta com a participação da moçambicana Selma Uamusse e a sua voz captivante. O vídeo foi lançado há três dias no blog da malta dos Grasspoppers, Afro Lx, e contém imagens do grupo em concerto.


Brown Skin Guy - Grasspoppers from Ras Kitchen Film on Vimeo.

Saturday, January 21, 2012

Komba em New York

January 6th, 2012 was the first time I saw Angolan musicians perform a concert outside of Luanda. Kalaf, Conductor,  DJ Riot and J-Wow, the latter two from Portugal, came to New York's Bowery Ballroom and I was there to see them with a huge Angolan flag and several of my closest friends. We got right up to the stage and must of been among the loudest fans - we kept calling out to Conductor and Kalaf and they kept coming over to shake our hands. I had never been to a Buraka concert before and it was one of the funnest times I've had at a live music show. The audience - a mix of Portuguese, Brazilian, African and of course American fans - was in a mood to party and dance, and the dance floor was as eclectic as it was electric. Blaya, the female member of the band, doesn't seem to have actual limbs, such was the way she moved - and she made sure the audience was on their feet as well.

As an Angolan it was an admittedly surreal experience having people grab the Angolan flag and know exactly what it was, in downtown New York City. It was surreal seeing Conductor, who I interviewed back in 2010 and who I first heard about as one of the producers of MCK's first CD, shake up a crowd in New York. From complete obscurity to being recognized and applauded worldwide. My usual experience here when people ask where I was from has been blank stares...this was the first time I rolled into a concert venue with an Angolan flag and people gave me high fives. As for the music, it's one thing listening to Komba on your stereo, and another hearing the album's song live. Here is Candonga, my favorite jam on the album.

Candonga

Dia 6 de Janeiro de 2012 foi a primeira vez que vi músicos angolanos a actuarem fora de Luanda. O Kalaf, Conductor, DJ Riot e J-Wow (os últimos dois são portugueses) vieram ao Bowery Ballroom em Nova Iorque e eu estive lá para os ver actuar. Trouxe comigo uma bandeira angolana de considerável tamanho e alguns dos meus amigos mais chegados. Conseguimos nos situar mesmo ao pé do palco e acho mesmo que fomos os fãs que mais gritavam (e talvez os mais chatos!). Chamamos incansávelmente pelo Kalaf e o Conductor e eles sempre a virem ter connosco para nos saudarem...nunca estive num show dos Buraka mas posso dizer sem papas na língua que foi um dos shows mais divertidos da minha vida. O público era maioritariamente português, brasileiro, africano, e claro, americano, e todos estavam armados em dançarinos. Foi bonito ver. O cenário estava montado: era tão ecléctico como eléctrico. Blaya, cantora que canta com os Buraka, parece não ter ossos no corpo dela, tal era a maneira que se contorcia. E fez questão de pôr todo mundo a saltar...

Como angolano, foi uma experiência surreal ouvir kuduro ao vivo em Nova Iorque, a ver gente a agarrar na minha bandeira angolana e a saltitar com ela. Foi surreal ver o Conductor, que entrevistei em 2010, e cujo nome ouvi pela primeira vez como um dos productores do primeiro CD do MCK, a fazer saltitar o público de Nova Iorque. Foi de obscuridade total a um gajo que é apreciado por onde vai no mundo. Nestas bandas, quando alguém me pergunta de onde sou e eu respondo, estou habituado a me deparar com um olhar totalmente esquisito, como se eu tivera inventado algo de outro mundo. Esta foi a primeira vez que fui a um concerto cá nos states com uma bandeira mangope e todos sabiam o que era. E para terminar, uma dica: uma coisa é ouvir o álbum Komba no teu stéreo, outra é ouvir e dançar as músicas ao vivo. Acima está Candonga, a minha música preferida do puro disco.

Wednesday, January 18, 2012

Caipirinha Lounge Cinema: Chasin, by Filipe Narciso

It's what's playing on my stereo right now. Filipe Narciso is one of the two members of the Angolan-Mozambican afro-house duo known as AM Roots, and here he stars in the video for his song Chasin', shot and produced in Angola by Angolans (Geração 80, again). The video is shot in the streets of Luanda and has a few shots of such landmarks as the Ilha and Elinga.

Filipe Narciso - Chasin' from Geração 80 on Vimeo.

É o que está a tocar no meu estéreo neste preciso momento. O Filipe Narciso (que por estas bandas já nem deve precisar de introdução) é um dos membros do grupo ango-moçambicano AM Roots (que também não precisa de introdução). A música do vídeo chama-se Chasin' e o vídeo em si foi produzido em Angola por angolanos (Geração 80, não nos escapamos deles tão cedo). Este clip foi filmado nas ruas frenéticas de Luanda e inclui alguns shots de lugares icônicos da cidade como a Ilha e o Elinga.

Monday, January 16, 2012

Caipirinha Lounge Cinema: Kubiko Unplugged Episode 1 - Jack Nkanga

Encontramos esta pérola na nossa página Facebook, cortesia do Mário Bastos. Chama-se Kubiko Unplugged e é o mais novo projecto da Geração 80:

KUBIKO UNPLUGGED 
A GERAÇÃO 80, que sempre tão bem nos surpreende, traz-nos um look intimista a músicos angolanos, onde eles apresenta-nos alguns dos seus êxitos num formato acústico e dão-nos a conhecer o seu mundo peculiar dentro de um Kubico (casa na gíria angolana). O primeiro episódio da web series, KUBIKO UNPLUGGED, tem como convidado JACK NKANGA. Um artista que está atrás do seu primeiro album e já começa a ser reconhecido pela sua irreverência em misturar estilos músicais como neo soul, afro-beat, funk e rock.

We found this gem on our Facebook page. It's another project by Geração 80 and it's called Kubiko Unplugged. The first featured artist is Jack Nkanga.

2012 começa assim... // 2012 starts like this...

Sixteen days after the start of 2012, I've finally been able to shake off my progressively debilitating 'writer's block' and my increasingly worrying inability to listen to much Lusophone music over the past couple of months. It came to the point that my cousin called me from Paris and called me out on the lack of posts. The man is right. There is a lot of music to listen to and so many exciting cultural and musical developments taking place in Angola, Portugal, Mozambique, Cape Verde and Brazil. 2011 was, however, a slightly tragic year for Lusophone music lovers, due to the passing of André Mingas, a highly respected Angolan musician that wasn't known in the west but was revered in his homeland, and, of course, that of Cesária Évora, the barefoot diva that was adored around the world. This brings us to Zarpante's second podcast: a musical homage to Cesária Évora with stops in Angola, Mozambique, and Brazil. Click play below and go to the SoundCloud page to find out more about the singers on this podcast.

Podcast Zarpante 02: http://snd.sc/wmYVzw

Dezasseis dias depois do começo do ano, consegui finalmente livrar-me desta preguiça debilitante que fez com que não escrevesse nestas páginas virtuais desde a longínqua data de 21 de Dezembro. Chegou ao ponto do meu primo em Paris ter ligado para mim a cobrar actividade no blogue. Ele tem razão. Felizmente consegui reencontrar a sede de pesquisar e consumir mais música lusófona. Há muita música por ouvir, e muitos projectos culturais e musicais em desenvolvimento em Angola, Portugal, Moçambique, e Cabo Verde. O ano promete. Mas para já, 2011 será lembrado por motivos menos felizes.  Os angolanos perderam um nome sonante do seu panorama cultural, o grande André Mingas, e meses mais tarde o mundo chorou o falecimento da diva dos pés descalços. O que nos traz ao mais novo podcast do Zarpante: uma homenagem à Cesária Évora com paragens musicais em Angola, Moçambique, e Brasil, entre outras paragens. Carregue no play below e visite a página do Zarpante no SoundCloud para saber mais sobre os artistas aqui expostos.

Wednesday, December 21, 2011

MCK no país do pai banana, by Rafael Marques

Gosto muito do Rafael Marques, não só pela sua coragem, "balls of steel", e "cojones", mas também pela sua forma de escrever e pela sua suprema dedicação na luta contra a injustiça extrema que grassa a sociedade angolana. Já não o vejo a anos (a última vez que ele me viu eu era criança, puto mesmo) mas nunca parei de acompanhar as suas diversas escritas e investigações. Agora com o site do Maka Angola tem se tornado ainda mais fácil. E foi com muito agrado que li a sua última crónica, relacionada com um artista que ambos adoramos: o MCK. Já escrevi aqui neste espaço sobre o seu resurgimento, mas não é todos os dias que o Rafael Marques faz uma crítica musical. Por isso, ponho aqui o mesmo texto que ele escreveu no seu site, com duas músicas do "Proíbido Ouvir Isso" no fim. O texto chama-se "MCK no país do pai banana" e vale muito a pena ler. Sem mais rodeios:

Em 2003, MCK, então com 22 anos, conferiu ao movimento rap em Angola extraordinária notabilidade política e social, em parte devido a uma intervenção assassina da guarda pretoriana do presidente José Eduardo dos Santos.
A 26 de Novembro do mesmo ano, soldados da guarda presidencial amarraram e arrastaram o lavador de carros Arsénio Sebastião “Cherokee”, 27 anos, para a água, no embarcadouro do Mussulo, em Luanda. Afogaram-no, ignorando os pedidos de clemência da multidão que circulava pelo local.

Que crime Cherokee teria cometido para merecer execução pública e sumária.

Os efectivos da Unidade de Guarda Presidencial (UGP) surpreenderam Cherokee a cantarolar “A Téknika, as Kausas e as Konsekuências” de MCK, também conhecida como o “Sei Lá o Quê, Uáué”, uma crítica acintosa ao governo de Dos Santos. Mataram-no imediatamente para que servisse de lição a todos.

O álbum de MCK era uma produção improvisada, clandestina (underground), distribuída por vendedores ambulantes. Os candongueiros, que fazem circular o povo por esta cidade de engarrafamentos intermináveis, amplificavam a curiosidade sobre o álbum pela regularidade com que tocavam a música para que os passageiros ganhassem consciência social através da música. É também nesta cidade de Luanda, onde a maioria não tem emprego formal e dedica tempo bastante para lamentar as suas malambas, que MCK tomou a dianteira em atacar os inqualificáveis abusos de poder como causas do mal-estar da sociedade. O artista rimava também contra o espírito de corrupção dos próprios cidadãos que preferiam adular os mesmos líderes políticos que os têm sujeitado à opressão, à miséria e à falta de educação, em troca do sonho de uma vida fácil. Este continua a ser o pesadelo da sociedade angolana.

Passados oito anos, “Proibido Ouvir Isto” é a nova proposta discográfica de MCK, com 15 faixas. Um trabalho mais estilizado e amadurecido, com líricas mais polidas e o mesmo espírito de revolta social. Diplomado nos meandros da sobrevivência social, MCK narra, através da batida, três elementos fundamentais da realidade actual: aA corrosão dos valores morais na busca obsessiva de dinheiro; o abuso de poder e de confiança e a falta de visão comum sobre o destino do país.

Em dueto com Paulo Flores, MCK interpreta uma nova versão de “Nzala” (fome), de Elias dya Kimuezo, que combina acústica, violino e a fala rapper, numa ode à criança com fome. É uma mensagem de amor, um apelo à solidariedade para com as crianças desta imensa Angola que precisam tanto de um pão como de uma mão cheia de afecto.

Numa outra faixa, com Bruno M, MCK revisita o drama da juventude dos musseques para quem o crime parece ser das poucas opções de realização na vida. É uma viagem pelas transformações ideológicas e da economia política angolana, pelos sistemas prisional e de justiça que discriminam e desumanizam os excluídos da sociedade. MCK denuncia também a manipulação da realidade angolana: “Biografias apagadas/ Jornalistas comprados/ E ai daqueles que se atreverem a enfrentar o mercenarismo político/ Mas ai de mim se não viver como um verdadeiro crítico deste cenário político/(…) Sacrifica-se a maioria pelos caprichos de uma minoria (…)”.

Na faixa “O País do Pai Banana” MCK ataca quem se empoleira “eternamente” no poder e já sem discernimento para gerir a realidade: “Também quero a paz no prato, dignidade e paz no prato./ Prefiro morrer a tiro do que morrer a fome, irmãos./ A disparidade é enorme, vivemos presos nesta armadilha, condenados a sermos escravos de três famílias./ Tudo é deles, do Talatona à Ilha, os diamantes são deles, o petróleo é deles, a imobilária é deles/ (…) para nós só temos o Zango e o Panguila./ O patrão é o colono, na terra do pai banana”.

MCK compõe, assim, o seu ritmo contra o novo-riquismo emergente dos actos de rapina e pilhagem dos recursos do Estado, que definem o modo de governação e o estilo de vida das famílias reinantes. Insurge-se contra a mentalidade neo-colonial e de claro desprezo para com o sofrimento do povo que anima a acção e o obsessivo apego ao poder por parte destas famílias. Este, afinal, será o legado de três décadas de reinado, trágico, do nosso “Pai Banana”. O músico profere a sua sentença: “Só temos uma opção/ Ou acabamos com a corrupção/ Ou a corrupção acaba connosco/ No país do Pai Banana.”

Numa infusão de reggae, o Ikonoklasta (também conhecido por Brigadeiro Mata Frakuz, ou simplesmente Luaty Beirão) e o MCK produzem, na opinião do autor, a melhor faixa do álbum, e a mais corrosiva das líricas (“A Bala Dói”). Luaty Beirão tem sido um dos principais impulsionadores dos protestos de rua contra o regime de José Eduardo dos Santos e uma das principais vítimas da sua brutalidade. É também a manifesta consciência de um jovem da classe dominante que troca o conforto do sistema para se juntar aos seus companheiros mais desfavorecidos. Fá-lo em irmandade e comunhão de ideais por uma Angola melhor e mais justa. O pai de Luaty, João Beirão, foi um dos mais próximos colaboradores do Presidente nos anos 90 e seguintes, na qualidade de director-geral da então poderosa Fundação Eduardo dos Santos (FESA).

“Sempre nos prometem comida/ Mas só nos dão porrada/ Nosso estômago até já grita/ Mas eles têm babas que cospem balas e a bala dói/ A bala bói, a bala dói [refrão] (…) /Palavras estão ‘bora minadas/ Esperança ficou mortelada [mutilada]”. Os jovens, com bom senso de humor, enquadram e desmontam o famoso discurso do Presidente em que não assume qualquer responsabilidade pela crescente pobreza em Angola porque, dizia José Eduardo dos Santos: “Quando nasci, já havia pobreza.” MCK lembra, assim, porquê esses “Tigres de papel sentem medo do Luaty”.

Em “Vida no Avesso”, MCK relata os paradoxos da política angolana e o desespero de muitos que acreditam apenas em uma intervenção divina para que o falso santo e a sua seita de malfeitores sejam “excomungados” da consciência nacional e devolvam a liberdade ao povo. “A chuva tem estatuto e mais garra que a oposição/ Desmascara as burlas das obras de um milhão (…)/ Jesus Cristo volta já/ Teu povo está a chorar (…)/

Com este disco, MCK retoma o seu lugar cimeiro como um dos artistas da mudança de mentalidade e da formação de uma nova consciência social em Angola.
A Bala Doi
O País do Pai Banana
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