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Thursday, June 28, 2012

Angola: Passado e Presente da Música de Resistência

A Sara Moreira escreveu este brilhante artigo para o website Global Voices Online. É um artigo que examina o papel da música nos movimentos reivindicativos de Angola, tanto no período ante-independência como agora. Lembrou-me um pouco de um post que escrevi no Lounge e que chamei "O Grito Político do Hip-Hop Lusófono". O artigo da Sara realça a repressão violenta sofrida pelo movimento que hoje reclama contra a permanência de Dos Santos no poder há mais de três décadas; movimento este cujas personagens mais proeminentes são músicos. É, por isso, inevitável a comparação que ela faz com o movimento musical dos anos 70 que foi fortemente reprimido pelas autoridades portuguesas. Sem mais rodeios:

Angola: Passado e Presente da Música de Resistência
Por Sara Moreira


No final de Maio de 2012, a Amnistia Internacional reportou [1] que com a proximidade das eleições em Angola, estava a haver uma escalada da repressão contra a liberdade de expressão no país, nomeadamente contra músicos de intervenção. O comunicado pedia a investigação exaustiva e imparcial de um ataque violento contra um grupo de activistas críticos do governo, que incluía o rapper “Hexplosivo Mental [2]“.

Duas semanas mais tarde, a 11 de Junho, outro rapper que não esconde a sua oposição aberta ao governo, Luaty Beirão, também conhecido por Ikonoklasta ou Brigadeiro Mata Frakuxz [3]foi preso [4] no aeroporto de Lisboa, por alegadamente transportar cocaína na sua bagagem.

Nas redes sociais são muitos que acreditam que a verdadeira motivação da prisão de #Ikonoklasta [5] é política, já que a sua voz dissidente é uma das que tem ganho mais visibilidade desde que o descontentamento com o governo do PresidenteJosé Eduardo dos Santos [6], há 33 anos no poder, passou a tomar mais frequentemente a forma de protestos nas ruas, e nos palcos de Luanda. Em Março de 2011, Luaty foi preso numa manobra de antecipação do governo que acabou por anular a manifestação agendada para 7 de Março [7], e um ano depois foi espancado [4] por milícias pró-regime em Cazenga.

Viagem no tempo dos Ritmos de resistência

Ao mesmo tempo, a música da resistência angolana das décadas de 50 e 60 foi homenageada num encontro organizado pela associação sem fins lucrativos Centro Interculturacidade [8] em Lisboa, no início de Junho. Celebrando a presença de Amadeu Amorim, que integrou os históricos N'Gola Ritmos [9] [en], e numa viagem ao passado da música de intervenção, o blog Interculturacidade apresenta [10] o conjunto musical da seguinte forma:

motor da ideia de independência de Angola, e por isso perseguido. desmantelado e com vários dos seus elementos presos. Amadeu esteve longo tempo no Tarrafal e mais tempo esteve o líder do conjunto, Carlos Liceu Vieira Dias.
Numa entrevista publicada [12] no blog Nós Por Cá, de Silvia Milonga, em 2002, Amadeu Amorim explica “o que era o N’gola Ritmos no contexto social e político” de então:
No fundo, era uma rebelião pacífica, tentando despertar consciências adormecidas, que não acreditavam em mais nada, eram 500 anos de colonização. Não havia televisão, nem rádio para toda gente, os jornais não chegavam aos musseques nem ao interior do país e nós sabíamos que uma canção ficava presa no assobio, no cantar. Na LNA quando cantávamos em kimbundu, as pessoas viravam a cara meias envergonhadas, chamavam-nos os mussequeiros. Algumas pessoas no meio daquela malta que estavam acordadas, entediam porque cantávamos em kimbundu, mais tarde outros apareceram a dizer que falavam ou cantavam em kimbundu. Chegamos a rádio Esperança, uma rádio que transmitia de Brazaville, ouvida às escondidas. A nossa canção era a única que existia, as pessoas ouviam a rádio e o N’gola Ritmos, passando a mensagem de que não chegamos ao fim, vamos começar agora.
Continue a ler aqui.

Angola: Rhythms of Resistance, Past and Present


Sara Moreira wrote this brilliant article for Global Voices Online, examining how music has played such an important part in the resistance movements of the Angolan people, both in the late 60s and early 70s as well as right now. It reminded me a bit of an article I wrote a couple of years ago highlighting the charged political leanings of Lusophone hip-hop. Sara's article puts the spotlight on the persecution and violent repression of the movement that has recently been protesting against Dos Santos' three-decades-old rule; the most prominent people in this movement, it turns out, are invariably musicians. It's therefore inevitable that parallels are drawn between the repression of pro-independence musicians back in the 70s. Read on:

Angola: Rhythms of Resistance, Past and Present
by Sara Moreira

On 24 May, 2012, Amnesty International reported [1] that as the August elections in Angola approached, intimidation and violence against freedom of speech was expected to escalate, including that against political musicians. The report called for a full and impartial investigation into a violent attack against a group of anti-government activists, which included rapper Hexplosivo Mental [2].

Two weeks later, on June 11, another artist, known for his open opposition to the government, Luaty Beirão, also known as Ikonoklasta or Brigadeiro Mata Frakuxz, was arrested [3][pt] at the airport of Lisbon, for allegedly carrying cocaine in his luggage. On social media, many people commented that the real reason behind #Ikonoklasta [4]'s detention was political. In recent times, the rapper's voice of dissent has become more and more visible, as he openly lent support to the frequent street protests in Luanda where dissidents have been holding demonstrations to voice discontent with the government of President José Eduardo dos Santos [5], who has been in power for 33 years now.

Previously, Luaty had been arrested in March 2011, in a preemptive maneuver [6] by the government which resulted in the cancellation of the proposed large-scale, anti-government demonstrations scheduled for March 7,2011. One year later he was attacked [3] [pt] by pro-regime militias in Cazenga.

Time travelling to other ‘rhythms' of resistance


In a journey to another time of Angolan music of resistance, the historical group N'Gola Ritmos [7] from the 50's and 60's, was honored by the non-profit association Centro Interculturacidade [8] [pt] in Lisbon, in the beginning of June, 2012. Celebrating the presence of Amadeu Amorim, one of the members of N'Gola Ritmos [7], blog Interculturacidadepaid [9] [pt] a tribute to the group, which was described as:

Motor da ideia de independência de Angola, e por isso perseguido. Desmantelado e com vários dos seus elementos presos. Amadeu esteve longo tempo no Tarrafal e mais tempo esteve o líder do conjunto, Carlos Liceu Vieira Dias.

(Force behind the idea of independence in Angola, and thus persecuted, dismantled, and several of its members arrested. Amadeu was long time in Tarrafal [prison camp [11] in Cape Verde] - and the leader of the group, Carlos Liceu Vieira Dias, (was in prison) even longer.)


In an interview published [12] [pt] on the blog Nós Por Cá, by Silvia Milonga in 2002, Amadeu Amorim explained “what N’gola Ritmos stood for in the social and political context” back then:
No fundo, era uma rebelião pacífica, tentando despertar consciências adormecidas, que não acreditavam em mais nada, eram 500 anos de colonização. Não havia televisão, nem rádio para toda gente, os jornais não chegavam aos musseques nem ao interior do país e nós sabíamos que uma canção ficava presa no assobio, no cantar. Na LNA quando cantávamos em kimbundu, as pessoas viravam a cara meias envergonhadas, chamavam-nos os mussequeiros. Algumas pessoas no meio daquela malta que estavam acordadas, entediam porque cantávamos em kimbundu, mais tarde outros apareceram a dizer que falavam ou cantavam em kimbundu. Chegamos a rádio Esperança, uma rádio que transmitia de Brazaville, ouvida às escondidas. A nossa canção era a única que existia, as pessoas ouviam a rádio e o N’gola Ritmos, passando a mensagem de que não chegamos ao fim, vamos começar agora.
Basically, it was a peaceful rebellion, trying to awaken dormant consciences, who did not believe anything else, seeing the 500 years of [Portuguese] colonization. There was no television or radio for everyone, the newspapers did not reach the slums or the interior of the country and we knew that a song stayed stuck in a whistle, in singing. In the LNA [Angolan National Liberation] when we sang in Kimbundu, people turned their face half ashamed, they called us ‘mussequeiros' [a mention to people from the slums, musseques in Portuguese]. Some people amidst those guys who were awake, understood why we sang in Kimbundu, others showed up later saying that they spoke or sang in Kimbundu. We made it to Esperança (Hope) Radio, a radio broadcast of Brazzaville, heard in secret. Our song was the only one that existed, people were listening to the radio and to N'gola Ritmos, the message saying that we hadn't come to an end, we are just starting, was in the loop.

Read the rest of the entry here. // Continue a ler aqui.


Tuesday, April 24, 2012

Flashback 2010: O grito político do hip-hop lusófono

Em Janeiro de 2010 escrevi as seguintes linhas:

Sou angolano, meus pais são angolanos, nasci em Angola, tenho passaporte angolano, sou portador de um BI angolano, visito o meu país pelo menos uma vez por ano, mas vivo na diáspora e por isso foi me retirado o direito de votar em eleições angolanas. Portanto, só me resta falar à toa aqui neste blog; a minha forma de luta, protesto e revolta é a música, como nos tempos prévios a independência angolana (em que nem sequer estava vivo). Naqueles tempos, eram as músicas de Teta Lando, Ngola Ritmos, e outros que exaltavam o povo para a independência. Hoje em dia temos as líricas do MCK, Azagaia, Ikonoklasta, Phay Grande (o poeta) e muitos outros que fazem do rap e hip-hop o seu grito de revolta. Como disse outrora, a música lusofona sempre foi bastante política, o Bonga que o diga. Aqui vão alguns sons que nesta semana são mais relevantes que nunca.

Intro pertinente para o artigo que se segue, artigo este que saiu na Lusa há mais de duas semanas atrás. O hip-hop angolano de qualidade sempre foi uma forma de intervenção social; acho a coisa mais natural que agora é a ‘banda sonora das manifestações contra o regime’, e que muitas das mais mediáticas personangens relacionadas com as manifestações em Luanda são eles próprios músicos. É impossível não ver os paralelos com os músicos que impulsionaram a luta da independência nos anos antecedentes ao 1975. Hoje, as entidades diplomáticas que visitam Angola já fazem questão de procurar o MCK  - que o diga a Angela Merkel e Durão Barroso. Quem já vibrou aos sons do Katro, do Ikono, do Azagaia, percebe perfeitamente esta ‘banda sonora’...e mais do que isso, dança ao som dela.

Lusa: Manifestações Contra Regime Têm Banda Sonora*

Os “rappers” MCK, Ikonoklasta e Carbono vivem em Luanda e têm feito a crítica musical ao regime de José Eduardo dos Santos As manifestações que se têm realizado em Angola no último ano têm como banda sonora as músicas de uma nova geração de “rappers”, que, apesar de mais limitados na liberdade de criação, prometem não baixar a voz.
MCK, Ikonoklasta e Carbono vivem em Luanda e têm feito a crítica musical ao regime de José Eduardo dos Santos. Pedro Coquenão é luso-angolano, mora em Lisboa e é o autor do projecto Batida, que reúne trabalhos de alguns destes músicos num disco com o mesmo nome, recentemente lançado.
Em comum, os quatro artistas têm a juventude, o gosto pela música, o protesto, a urgência da democracia e o amor que dizem ter por Angola. Muitos dos protestos que aconteceram no país no último ano foram influenciados por estes “rappers”, que também os têm apoiado publicamente e até participado neles. “Corremos todos o risco, se pensarmos de forma diferente, a sermos mortos como galinhas de rua”, alerta o “rapper” MCK, em declarações à Lusa.
Regime aperta o cerco aos artistas
O regime angolano foi perdendo a tolerância e, no último ano, as coisas tornaram-se mais difíceis para os artistas angolanos. O decreto presidencial 111/11, de 31 de Maio de 2011, que regula espectáculos públicos, passou a impor um sistema de “registos”, “vistos” e “licenças” para atividades artísticas. “A repressão, agora, é mais actuante. O ano passado já foi um ano muito pesado, porque foi um ano pré-eleitoral. Este ano, como é eleitoral, a repressão aumentou”, compara MCK.
Os concertos deixaram de ser autorizados. No final do ano passado, o “rapper” Carbono tentou organizar espectáculos no Teatro Elinga, sala “histórica” para a música de intervenção, mas não conseguiu. “Querem controlar a cultura, principalmente os artistas independentes”, denuncia. Isso não tem impedido que estes “rappers” vendam milhares de discos, mais ou menos à socapa, nas ruas angolanas.
O país vive entre duas realidades distintas, destaca Pedro Coquenão, autor do projecto Batida e criador da Rádio Fazuma. Por um lado, há a realidade política, financeira e mediática, que “é um sítio onde parece que está tudo bem”, com uma “conversa cheia de advérbios de modo”, e, por outro, há o dia-a-dia, onde as pessoas “têm uma esperança média de vida que é uma pouca-vergonha”.
Não é por acaso que a música de intervenção nasce nos bairros mais pobres de Angola. É nos musseques onde “não há sequer a hipótese de decidir o que se quer fazer da vida”, lembra Coquenão. “Sempre foi assim. Só que hoje tens uma grande maioria de pessoas muito pobres e uma minoria cada vez mais reduzida de pessoas muito ricas”, realça MCK.
Depois da guerra e da morte, “Angola tem tudo para dar certo”, acredita MCK. Mas “o país está completamente anestesiado”, descreve o “rapper” Ikonoklasta.
É disso que fala a música “Cuka”, incluída no disco “Batida”. “A cerveja [Cuca é a marca nacional] aqui custa menos 70 cêntimos do que a água. É mais fácil as pessoas matarem a sede com cerveja. O país está completamente anestesiado e o álcool é uma das maneiras de o manter assim. Quando o MPLA faz manifestações, comícios, o que for, um dos chamarizes é a distribuição, quando não gratuita, a preços mais reduzidos de cerveja”, descreve à Lusa.
A maioria dos manifestantes anti-governo é composta por estudantes e artistas, mas também há “mães e senhoras do bairro”. A burguesia é que “ainda não se envolveu”, porque “está muito bem habituada à vida que tem”, lamenta Pedro Coquenão. Estes artistas não têm uma causa nova. “Estamos a cobrar o que essas pessoas fundaram, mas não está a acontecer na vida real”, resume Pedro Coquenão.
“As coisas vão demorar muito tempo”, mas, se ninguém fizer “asneiras”, a democracia estará lá, no fim do caminho, acredita.
“Olho Angola como a nossa parceira. Devemos ser os primeiros a elogiar a nossa parceira e também os primeiros a criticá-la. Com justiça e verdade. Não porque a odiamos, mas porque a amamos muito”, salienta MCK.

*Texto original saiu na Lusa no dia 8 de Abril de 2012
Este texto foi recuperado do site Maka Angola
Os links são do Caipirinha Lounge

Friday, October 14, 2011

Proibido Ouvir Isso: O Regresso do MCK // MCK's Return

This has been a long time in the making. The Lounge has been dormant for some time but these fresh, characteristically brilliant and irreverent MCK tracks shook me from my lack of time/writer's block/lethargy/what have you. If the excuse was lack of time...MCK, I'll make time for you.

It's been 5 years since MCK's last album, 'Nutrição Espiritual'. On 12 December 2011, the man is releasing his newest effort, 'Proibido Ouvir Isso' (translation: 'Listening to this is Prohibited). I still remember the first time I heard MCK - we were staying in my aunt's house in Luanda and my brother Paulo gave me his headphones so I could listen to "this cool new rapper that speaks the truth". At the time, my knowledge of rap consisted of SSP and their "Essa Keta me Mata", but my brother's tastes at that time were already in Black Company territory. Since then, MCK has been my among my favorite lusophone rappers and his voice has always been one of reason, no matter the threats he received, Cherokee's death, boycotts on Angola's radio stations (apparently playing MCK's music is subversive behavior) and the like. Nonetheless, he's stayed true to himself, and these latest efforts are a testament to that. And there's no reason to suspect that he's been out of form, because if his participation on Kid MC's O Porquê da Investida, he's as good as ever.

Below you have two single's that he's dropped in anticipation of his album release. A lot has happened in Angola over the last 5 years, and especially over the last 6 months, and it's evident on MCK's lyrics. '5 Anos de Ausência' chronicles the reasons for his absence and significant political events of the past 5 years, while my favorite, 'Nomes, rimas e palavras', is an intricate wordplay describing the power plays and the behing the scenes realities of Luandan politics. Can't wait for 18/12/2011.

5 Anos de Ausência
Nomes, rimas e palavras

Demorou mas foi. O Lounge tem estado desligado estes últimos dias mas estes novos brindes característicamente brilhantes e irreverentes do mano Kapa acordaram-me da soneca musical e mandaram para longe a minha "falta de tempo". Se a desculpa era falta de tempo, então, MCK, eu faço tempo pra ti.

Já lá vão 5 anos desde o último álbum do MCK, o 'Nutrição Espiritual'. No dia 12 de Dezembro deste ano ele lançará a sua mais recente obra de arte, 'Proíbido Ouvir Isso'. Nos dias de hoje em Angola, este título faz todo o sentido. Ainda me lembro da primeira vez que escutei o MCK: foi na casa da minha tia, em Luanda, e o meu irmão mais velho Paulo foi o 'autor do crime', ao me dar os headphones para eu ouvir 'Topikos pro artigo'. "Ouve esse mambo, esse gajo fala a verdade", disse o meu irmão. Ou pelo menos disse algo nestas linhas. Naquela algura o único "rap" que ouvia era "Essa Keta me Mata" dos SSP e coisas do género; já o meu irmão estava em andanças muito mais avançadas e já ouvia Black Company. Desde a primeira vez que o ouvi que o Kapa acabou comigo. Desde lá, tem sido um dos meus rappers lusófonos preferidos, sempre fiel a si mesmo não obstante as ameaças, a morte do Cherokee, os boicotes nas rádios angolanas, e por aí em diante. Nestas músicas é possível ouvir a sua honestidade intelectual. E nem há porquê pensar que o seu nível como rapper baixou...basta ouvir a parte dele no 'O Porquê da Investida' do Kid MC para perceber que o homem está em forma, melhor que nunca.

Acima estão dois dos singles do novo álbum do Katro. Muito tem acontecido em Angola nos últimos 5 anos (e ainda mais nos últimos seis meses) e as letras dele refletem isso. Não me irei alongar sobre isso, porque as músicas cantam por si. Basta carregar no play no '5 Anos de Ausência' para perceber do que falo. Mas a minha preferida das duas é mesmo 'Nomes, rimas e palavras', onde o Kapa literalmente brinca com os nomes dos nossos 'governantes' como se de uma bola se tratasse. A linha do Capapinha, da Espírito Santo, enfim, o homem é um poeta. E a última dica..."são poucos tipos que eu tiro o boné /  um desses sobreviventes é William Tonet." Mesmo a calhar...

Saturday, April 2, 2011

Abidjan Burning

I have already posted this song from Ivorian reggae star Tiken Jah Fakoly awhile back, but never has it been more poignant than today, as Abidjan burns and countless lives are lost in another bloody struggle for power in an African country. To the Ivorian people, my heart is with you. To those responsible, quitte le pouvoir

Quitte le Pouvoir

Num passado não muito distante, postei esta música do Tiken Jah Fakoly, artista de reggae da Costa do Marfim. Mas penso ser esta uma excelente ocasião para voltar a postar-la, sendo hoje um dia em que a capital marfinense está em chamas e centenas de vidas estão sendo perdidas por aqueles que acham que a vida humana não tem valor e que o poder é mais importante. E assim se vai mais um país africano. Para o povo marfinense, o meu coração está com vocês. Para os responsáveis de mais esta chacina, quitte le pouvoir.

Friday, September 3, 2010

"Shots Heard in Maputo": Povo no Poder, by Azagaia

Shots Heard in Mozambique Capital. That's the headline today on BBC's Africa website. The substancial price increase of basic goods have spurred Maputo's residents into action, and the riots are now on their second day. The official count is 7 dead and 288 injured, but non-governmental sources have said the death-toll is at 10 and the injured, more than 500.

About two years ago Mozambican rapper and social activist Azagaia wrote and released the 'anthem' Povo no Poder, a song that landed him in the attorney general's office. It's eerie how his lyrics, decrying deplorable living conditions, rising prices in the face of rising unemployment, rampant corruption, and other preventable social ills still hold true today, of all times. And it's the first song that came to mind as the news of the riots in Maputo came through. Regardless of whether or not you understand Portuguese, press play and listen to the indignation.

Povo no Poder

Preços Altos Geram Violência em Mozambique. Esta é a notícia de hoje no website da BBC em português. No mesmo dia em que o governo angolano subiu o preço do combustível em Angola, os residentes de Maputo saíram à rua para protestar, com veemência, a subida substancial de preços de artigos básicos, como o pão, o combustível e a água. Os protestos já vão no seu segundo dia, e oficialmente o número de mortos é 8 e de feridos, 288. Mas outras fontes dizem que já morreram 10 pessoas e que a lista dos feridos já passa dos 500.

Aqueles que seguem o quotidiano de Moçambique sabem que há sensivelmente dois anos, o rapper e activista social Azagaia, na minha opinião o melhor rapper em Moçambique, foi chamado pelo Procurador da República para dar uma explicação acerca da letra do 'hino' Povo no Poder.

"Ladrões, fora! Corruptos, fora!"

É incrível como a letra desta música continua a ser tão relevante. Podia ter sido escrita hoje, em que as ruas de Maputo tremem de frustração e violência.

Isto é Maputo, ninguém sabe bem como
O povo que ontem dormia hoje...perdeu o sono
Tudo por causa desse vosso salário mísero
O povo sai de casa e atira pra o primeiro vidro
Sobe o preço do transporte sobe o,
Preço do pão
Deixam o meu povo sem Norte deixam o,
Povo sem chão
Revolução verde, só vemos na nossa refeição
Agora pedem o que?...Ponderação
Pondera tu, antes de fazeres a merda
De subires o custo de vida
E manteres baixa a nossa renda
Esse governo não se emenda mesmo...NÃo
Vai haver uma tragédia mesmo...SIM
Mesmo...
Que venham com gás lacrimogéneo
A greve tá cheia de oxigénio
Não param o nosso desempenho
Eu vou lutar, não me abstenho

Foi a primeira música que me veio a mente quando começaram a surgir as notícias dos protestos em Maputo. Carrega no play e sente a indignação de quem está no terreno.

Sunday, August 22, 2010

Até Quando? por Gabriel o Pensador

Gabriel o PensadorOnce in awhile (or more often than not, depending on your patience, your optimism), Luanda can become a difficult, bureaucratic beast. Or worse, a repressive concrete slum jungle full of contrast and contradiction. Once in awhile you'll cease to see the beauty of the Marginal, the serene view of Luanda as seen from Miramar, the way the São Miguel Fort lights up against the backdrop of the night sky. Once in awhile it gets to you: the injustice, the inequality, the crime, the police brutality. The corruption, the obscene display of ill-gotten wealth, the rampant unemployment, the kids that aren't in school, the omnipresent dust. The slums, the potholes, the increasingly paranoid, oppressive regime. But what gets me the most is the attitude. The mentality. And above all, the impassiveness of the people in the face of such avoidable adversity. Até Quando? (Until When?)

In the lusophone world we seem to share the same problems. Até Quando is a politically charged, socially conscious, call-to-arms anthem by Gabriel o Pensador, one of Brazil's brightest rappers. Though he's a rap artist in the traditional sense - Gabriel's raps are a lot more influenced by rock and popular Brazilian music genres than by anything else. Até Quando, from Gabriel's 5th studio album Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo) is a great example. For those who understand Portuguese, or can spot true talent when they hear it regardless of the language, and/or who live in Luanda and want to hear a song that vents for them, that expresses their frustration, give Até Quando a listen.

Até Quando?

De vez em quando (ou, dependendo do seu grau de paciência e optimismo, regularmente), viver em Luanda pode-se tornar um exercício difícil, um bicho burocrático de sete cabeças. Ou pior, pode significar vive numa repressiva selva de betão, cimento e poeira, repleta de contastes e contradições. De vez em quando, paras de ver a beleza da Marginal. A vista de Luanda à partir do Miramar deixa de te seduzir, e a maneira que a Fortaleza de São Miguel acende à noite já não te diz nada. De vez em quando, é difícil escapar a realidade por baixo da beleza. A outra Luanda. A da injustiça gritante, da desigualdade social, do crime, da brutalidade da polícia. A Luanda da corrupção, das obcenas amostras de riqueza conseguida de maneiras menos honestas, do desemprego avassalador, dos putos que não estão a estudar mas sim a vender cigarros, da poeira omnipresente. A Luanda dos musseques sem as mínimas condições de vida, das estradas cómicamente esburacadas, do regime cada vez mais paranóico e opressivo. Mas o que mais me espanta é a atitude das pessoas. Da sua mentalidade. E acima de tudo, do seu pensamento de "deixa-estar", de impotência, de preguica, perante tamanha desgovernação ou mesmo perante si mesmas. Até Quando?

No mundo da lusofonia, às vezes partilhamos das mesmas "mazelas", dos mesmos problemas. Até Quando é uma música politicamente carregada e socialmente consciente, um apelo ao nosso espírito de justiça, um hino à nossa dignidade como cidadãos e seres humanos. É da autoria do rapper brasileiro Gabriel o Pensador, um dos rappers mais inteligentes daquele país irmão. Se bem que ele não é um rapper do estilo ao que estão habituados, porque musicalmente as suas influências partem muito mais do rock e de estilos sonoros brasileiros do que o rap chamado tradicional. Até Quando, do seu quinto álbum de estúdio, Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo), é um exemplo da sua sonoridade. Para todos aqueles que vivem em Luanda e de vez em quando mergulham em tais frustrações, Até Quando é uma música que grita, que clama, que descarrega pro ti.

-Photo by Festivaldeinverno

Tuesday, February 9, 2010

Havemos de Voltar!

Os leitores mais assíduos deste blog sabem que às vezes luto para não vos imbutir com muita política, ja que o Caipirinha Lounge é um audioblog de música. É verdade que a música lusófona e a política têm uma relação íntima, mas tudo tem o seu espaço.

É por isso que tomo agora esta oportunidade para anunciar a criação de um novo blog, de nome Havemos de Voltar, onde os frequentadores do Lounge mais virados para política podem debater livremente e sem receios os mais diversos temas do nosso dia-a-dia político. É um blog virado primáriamente para juventude angolana na diápora, mas claro que todos são bem vindos. Podem enviar críticas, artigos, fazer comentários, enfim, exercer os vossos direitos como cidadãos angolanos.

Fico à vossa espera no Havemos de Voltar!

Monday, January 25, 2010

O Grito Político do Hip-Hop Lusófono

Sou angolano, meus pais são angolanos, nasci em Angola, tenho passaporte angolano, sou portador de um BI angolano, visito o meu país pelo menos uma vez por ano, mas vivo na diáspora e por isso foi me retirado o direito de votar em eleições angolanas. Portanto, só me resta falar à toa aqui neste blog; a minha forma de luta, protesto e revolta é a música, como nos tempos prévios a independência angolana (em que nem sequer estava vivo). Naqueles tempos, eram as músicas de Teta Lando, Ngola Ritmos, e outros que exaltavam o povo para a independência. Hoje em dia temos as líricas do MCK, Azagaia, Ikonoklasta, Phay Grande (o poeta) e muitos outros que fazem do rap e hip-hop o seu grito de revolta. Como disse outrora, a música lusofona sempre foi bastante política, o Bonga que o diga. Aqui vão alguns sons que nesta semana são mais relevantes que nunca.

A Téknica, as Kausas, e as Konsekuencias, por MCK

A Teknika, as Kausas, e as Konsekuencias

Este é Um dos temas mais icónicos do grande MCK, proveniente do seu primeiro album, Trincheira de Ideias. Causou a morte de Cherokee, um jovem que foi brutalmente morto por um guarda do regime pelo simples facto de estar a cantar a música.


O Silêncio Também Fala, por MCK

O Silencio Tambem Fala

“O país não tem dono, Angola é de todos nós.” Nada mais precisa ser dito.


As Mentiras, por Azagaia

As Mentiras

Com músicas incisivas como esta, o mano Azagaia está a incomodar muita gente no Moçambique e não só. As Mentiras pinta um quadro triste das similaridades entre a nossa sociedade e a de Moçambique


Combatentes da Fortuna, por Azagaia

Combatentes da Fortuna

O Azagaia cantou esta música no Cine Karl Marx durante o seu concerto em Luanda e levou a casa abaixo. O público percebeu o conteúdo da mensagem. Aqueles que um dia lutaram contra o colonialismo hoje fazem pior. O povo que sempre juraram defender, hoje ja nem olham para eles.


Povo Burro, por Phay Grande

Povo Burro

Há quem diz que ás vezes o povo tem os governadores que merece. Será..? O Phay Grande tem algo a dizer sobre isto.

-Photo: Azagaia, by Cotonete Records

Friday, January 22, 2010

Angola Abolishes Presidential Elections

Frase bem dita pela BBC.

Um dia a história os julgará, se as suas consciências não o fizerem antes.

Well said by the BBC.

One day history will judge these people. If their conscience doesn't do it first.


Para reflexão:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/8472127.stm


http://angonoticias.com/full_headlines_.php?id=26330

http://angonoticias.com/full_headlines_.php?id=26338

E aqui vai a transcrição de uma pequena parte do artigo de Emanuel Lopes sobre o assunto. Espelha muito bem o que me vai na alma:

"Para haver Democracia é preciso que o poder não seja exercido por uma só pessoa. A isso chama-se ditadura. Para haver Democracia é preciso que o poder legislativo seja eleito. Para haver Democracia é preciso que o poder executivo seja eleito, ou que emane do poder legislativo eleito. Para haver Democracia é preciso que o poder judicial seja independente. Para haver Democracia é preciso que o Povo saiba quem elege ou quem não elege. A partir de hoje nada disso é possível em Angola. Pela nova “Constituição” de Angola, o Presidente da República é o “cabeça de lista” (ou seja o deputado colocado no primeiro lugar da lista), eleito pelo do circulo nacional nas eleições para a Assembleia Nacional. Não é uma eleição indirecta, feita pelo parlamento (como acontece por exemplo na República da África do Sul). Não. É o primeiro deputado da lista do partido mais votado. Mesmo que esse partido só tenho, por exemplo, 25% dos votos expressos. Por outras palavras o sr. engº José Eduardo dos Santos, com medo de perder as eleições presidenciais, acaba com elas. E por via das dúvidas, na hipótese de o partido a que preside não conseguir mais do que uma maioria relativa (por exemplo se não conseguirem fazer uma nova fraude eleitoral), ele será sempre o Presidente do País. Pela nova “Constituição” o Presidente de Angola nomeia o Vice-Presidente, todos os juízes do Tribunal Constitucional, todos os juízes do Supremo Tribunal, todos os juízes do Tribunal de Contas, o Procurador-Geral da Republica, o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, os Chefes do Estado Maior dos diversos ramos destas. Sem indicações da Assembleia Nacional ou sem qualquer proporcionalidade em relação aos votos dos eleitores. Portanto, entre familiares, amigalhaços e clientes ele arranjará gente para todos os cargos. Nem Salazar nomeava todos os poderes. Na verdade o sr. engº dos Santos já fazia tudo isto, ilegalmente é verdade, como Bokassa, Idi Amin ou Mobutu, mas agora colocou-o na lei fundamental do País e vai poder fazê-lo “legalmente”. Assim os amigos como Sócrates, Cavaco ou Obama vão felicitá-lo por esta nova “Democracia”. Assim os velhos lutadores pela liberdade do seu próprio partido, poderão continuar a receber as prebendas e as gasosas e disfarçar a sua cobardia. É por isto que hoje é um dia triste para Angola. Morreu a esperança na Democracia ou morreu a Democracia."

Tuesday, January 19, 2010

Quitte le Pouvoir, by Tiken Jah Fakoly

Tiken Jah FakolyThere are some places that politics doesn’t belong, and this site tries to be one of them, even though Lusophone music tends to have strong political connotations (Azagaia, MCK, the strong musical independent movement in Angola and other Portuguese ex-colonies in the ‘60s and 70s). But sometimes it’s hard to be impervious to such an affront to democracy and good governance. During the ongoing CAN championship Angola’s state party approved a new constitution which strips us of the right to directly elect our next president in a free and fair election; rather, the president will be elected during the legislative election process where whoever is the first MP on the list of possible MPs of the winning party is automatically chosen president.

And thus Angola slides towards an increasingly totalitarian reality. A sham of democracy.

The disgust I feel at our new reality is best summed up by one of my favorite reggae artists, Tiken Jah Fakoly. This brave man hails from Cote d’Ivoire and is himself not adverse to political controversy – his sharp tongue and knack of exposing contradictions, corruption, and outright lies perpetrated by the governments of Western Africa have seen him declared persona non grata in several west African countries.

Quitte le Pouvoir is especially suited for the Angolan reality; in translates as ‘Leave Power’. “Mr. President, if you love your country, step down,” sings Tiken Jah. The song speaks for itself.

Quitte le Pouvoir

Não gosto muito de misturar cultura e musica com política (principalmente neste site) mas as vezes é dífical não o fazer, mesmo porque a música lusófona tende a ter fortes conotações políticas (MCK, Azagaia, o movimento musical independentista de Angola e outras ex-colónias portuguesas nos anos 60 e 70s). Há vezes que é extremamente dífical matermo-nos impávidos face os grosseiros ataques a ‘democracia’ angolana. A semana que findou foi mais um exemplo desses ataques: foi aprovado o Versão C da nova constituição angolana, que entre outras anormalidades acaba com o nosso direito de eleger o nosso presidente directamente atravéz de eleiçoes livres e justas. Em contrapartida, o presidente passa a a ser simplesmente o cabeça de lista dos deputados cujo partido vence as eleições legislativas. Ou seja, os cidadãos angolanos deixam de ter o direito de escolher por sua livre vontade, e em eleições separadas, quem será o seu presidente.

E assim Angola caminha para uma democracia de faz-de-conta, rumo ao calar das opiniões contrárias.

O desgosto que tenho face a este atentado ao processo democrático angolano é melhor exprimido por o único, o irreverente, o Tiken Jah Fakoly, um artista reggae da Costa do Marfim. A sua língua afiada e as suas críticas duras contra os regimes corruptos e ás vezes mentirosos de alguns países do oeste africano ja o fizeram ser considerado persona non grata nestes mesmos países.

Quitte le Pouvoir é especialmente adequado a nossa realidade. Traduzido, significa ‘Deixa o Poder’. Senhor Presidente, pelo bem do teu país, deixa o poder, canta ele. A música fala por si.

- Photo by Matthieus

Tiken Jah Fakoly's official site
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