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Wednesday, April 8, 2015

CFKappa: Redireccionando Influências


Enquanto escrevo estas linhas tenho nos headphones a música "Diário de um Rapper", do CFKappa (Cláudio Fernando Kiala), que pode ser encontrada no primeiro post que escrevi sobre ele, em 2009. Ou seja, há seis anos que oiço os raps do meu chará. Em 2010 o Cláudio concedeu uma entrevista algo extensa a este mesmo portal, tendo dito na altura, "tenho fé no futuro de Angola por saber que farei parte dele."

E tinha razão.

Homem de vários talentos e possuidor de um empreendedorismo nato, o que mais me impressiona no Kappa é que mesmo com tudo que ele faz, ainda teve tempo de sobra para aperfeiçoar e amadurecer o seu rap sem nunca perder a essência e sonoridade particular que o caracteriza. Há continuidade na sua trajectória. Oiço agora "Graduação" e noto aí a matriz da identidade sonora que ouvimos ao longo do seu mais recente trabalho, Redireccionando Influências, o melhor conjunto de músicas que o CFKappa já lançou até hoje. É um álbum que demanda ser ouvido para se poder compreender a evolução do rap angolano por intermédio de um dos seus mais novos intérpretes, alguém que ainda está na sua década dos 20 mas que já carrega nas costas um legado notável.

É impossível falar das músicas do CFKappa sem mencionar o que lhe dá a sua essência: os dotes de produção do Kennedy. Aliás, toda label Cérebro Records é responsável pela sonoridade única (e o sucesso) dos sons do Cláudio. Este não é um rap necessariamente agressivo, nem monótono, mas sim um rap que carrega consigo das mais diversas influências musicas, principalmente o jazz e a chamada "música negra". Oiçam, por exemplo, o som "Conglomerado". É um dos meus preferidos no álbum, precisamente pela sonoridade jazzy e leve, a descontração, e, claro, o conteúdo: um "shout-out" do autor à sua label. Três minutos e onze segundos é o suficiente para se ter noção do caracter deste álbum e do cantor em si.

Outra pérola aqui é o "Mantém-te em Movimento", a última faixa do disco e uma maneira bastante positiva de o terminar. Aprecio a mensagem; este é o meu brinde de eleição logo de manhã, enquanto me preparo. Enfrenta-se melhor o hustle com este som nos ouvidos.

Mas a pedrada que mais me surpreendeu no Redireccionando Influências foi o Ewéee. Simplesmente não conhecia esta faceta do Kappa. Este som é material bélico, arma de destruição massiva e de longe o mais agressivo da carreira do jovem. O trabalho do DJ Ritchelly aqui também não é de bem. Este mambo ficou no repeat durante tempo considerável enquanto desconstruía cada estrofe deste assassinato lírico.

"Sou tão cabeça na lua que hoje rimo com asteróides
A psicoanálise não previu a minha mente
'Warido' Freud..." 

Inserir aqui aquele emoji de olhos esbugalhados. E tem mais dessas, em cada estrofe, em diversas linhas. A prova de que o CFKappa não é só rap manso, "bolo-leite" como o próprio diz. 

Para meros ouvintes como eu, é sempre gratificante acompanhar a ascenção, e amadurecimento, de um dos rappers mais promissores do meu país. Redireccionando Influências é o cimentar do CFKappa no actual panorama musical angolano.

Conglomerado
Mantém-te em Movimento
Ewéee

Redireccionando Influências on Bandcamp


As I write these lines I'm listening to CFKappa (Cláudio Fernando Kiala's) "Diário de um Rapper" on my headphones, from the first ever post I wrote about him back in 2009. Which means I've been listening to Kappa's raps for six years. In 2010 he was interviewed at length on this blog, where he memorably said "I have faith in Angola's future because I know I'll be a part of it."

How right he was.

Multi-faceted, multi-skilled and a natural entrepreneur, what most impresses me about Kappa is the fact that through it all he's been able to mature, nurture and perfect his rap without ever losing sight of its essence and its rather unique sound. You can recognize a CFKappa joint and there's continuity in his craft. I'm listening to Graduação now and it possesses the same type of sound heard throughout Kappa's newest album, Redireccionando Influências. It's the best collection of songs that he's ever put out. It demands to be heard, if anything because it will help you understand and evaluate Angolan rap's evolution through the verses of one of its youngest rappers, a man still in his twenties but already boasting an impressive resumé.

It's impossible to talk about CFKappa's work without acknowledging that which makes it what it is: Kennedy's production value. In fact, the entire Cérebro Records label is responsible for the unique sound (and success) of Cláudio's raps. It's not necessary an agressive brand of rap, or the monotonous, predictable beats prevalent in the global market, but rather a rap that is obviously influenced by jazz, soul, and other forms of "black music". Listen to Conglomerado, for example. It's one of my favorite on the album precisely because of its laid-back, jazzy, easy sound, and because it's a humorous ode to his label. Three minutes and eleven seconds is enough for it to make his mark and give you a taste of what this artist and his album are about.

Another highlight here is "Mantém-te em Movimento", the last track on the album. It signs off on a high note and has a positive, uplifting, motivational message. I like to listen to it in the morning before my daily grind; it helps me hustle.

But the album's standout, and the track that most surprised me, was Ewéee. I simply didn't know this side of CFKappa. He's on top of his game on this one, showcasing agressive and intricate vocals doused in double-meanings and clever wordplay; it's deliciously brutal. I had it on repeat for quite awhile in order to deconstruct every single verse, attack, pun and diss. It's Kappa's way of saying that he's not all soul beats and jazz influences - he can be vicious when he wants to be.

For mere listeners like myself, it's always gratifying to witness the ascension of one of my country's most promising rappers. It's been a pleasure to watch him mature. With Redireccionando Influências he has firmly staked his place in Angola's current musical space.

Sunday, May 12, 2013

Música de Intervenção Rápida (MIR), by Azagaia


It's frequently said that Angola and Mozambique have similar political and social realities. We both had socialist regimes, we both suffered a debilitating civil war, and we both have issues when dealing with the basic tenants of a democratic state, such as freedom of expression, freedom of assembly and human rights. This is precisely the topic of Azagaia's first single since signing for Kongoloti Records:
“MIR - Música de Intervenção Rápida” (Rapid Intervention Music) is the song Azagaia wrote after the last demonstration of the veterans of war that was brutally ended by the mozambican police. The Minister of Justice responded saying that sometimes the Human Rights can be violated to protect “higher interests”.​
As always, Azagaia's delivery is energetic and blistering - the man always seems to be on form. Check out the video below:


Música de Intervenção Rápida

Que Angola e Moçambique têm realidades políticas e sociais paralelas já foi dito muitas vezes. Ambos tivemos regimes socialistas, ambos sofremos uma guerra civil debilitante e ambos temos problemas graves no que toca aos valores básicos de uma democracia, como liberdade de expressão, o direito a manifestação e os direitos humanos. Este é precisamente o tópico deste single do Azagaia, o primeiro desde que ele assinou pela Kongoloti Records. Como sempre, o mano Azagaia está em grande forma. Contunde, irreverente e sempre relevante. Nas palavras da Kongoloti:
Música de Intervenção Rápida” é o novo single do Azagaia, escrito logo após a última manifestação dos ex-combatentes de guerra que foi brutalmente interrompida pela polícia moçambicana. A Ministra da Justiça respondeu dizendo que em algumas situações os Direitos Humanos podem ser soprepostos por “interesses mais altos”.

Wednesday, January 9, 2013

Halloween

Halloween, the man who shook me from my writing lethargy.

One of my (many) handicaps with Lusophone music is my lack of in-depth knowledge of Portuguese rap, from Portugal. I’m completely in tune with the hip-hop scene in Angola, I’ve listened to almost everything that Azagaia from Mozambique has put out, I’ve scratched the surface of Brazilian hip-hop, but when it comes to Portuguese hip-hop, the one that started it all in the Lusophone world, I’m woefully inadequate.

There is a particular Portuguese rapper however that I have been vaguely aware of for quite some time now. My cousin Anderson, the same guy who introduced me to Valete, had told me about man who went by the name of Halloween and was unlike any hip-hop artist he had ever seen. I never really got into Halloween and didn't take my cousins advice seriously. Some years later Halloween did a concert in Luanda and people went nuts. I still didn't feel the urge to listen to his stuff.

That all changed on a recent trip to Lisbon. I was with friends, amongst them a Lusophone rapper, and the topic of Halloween came up. My friend and the rapper disagreed about Halloween’s skill and street credibility, but both agreed that his song No Love, included below, was immense. They played it from the speakers, and that was the first time I heard Halloween rap.

Once I got bit, it was difficult to stop. I've been listening to him for the better part of the last two months. Halloween, born Allen Pires Sanhá in Guinea-Bissau, also known as Allen Halloween or Bruxa (Witch), is quite unlike any Lusophone rapper I have listened to. It’s difficult to describe his sound, but I will say that it’s the grittiest, bleakest, rawest but yet conscious and instrospective brand of Lusophone hip-hop I have ever heard. One second he is rapping about stealing money, the next he’s lamenting about how a life of crime is simply not worth it. Shy and anti-social, He sees himself and his crew for what they are, and has a bleak, brutally honest way of assessing his contribution to the world. We are, in effect, listening to a product of his environment, a man who’s habitat is Lisbon’s notorious slums and poverty-stricken streets, wasteland of the many African immigrants that flocked here from Cape Verde, Guinea-Bissau, Angola, etc.

Through interviews and through his rhymes Halloween has told his story of neglect, drugs, and street crime, and you can hear the pain, anguish, and anger in his voice. The haunting drawl with which he raps, especially in No Love, is particularly striking. So far I’ve only listened to his debut album, Projecto Mary Witch (2006), and among the tracks that are tame enough for me to share them here with you, seeing how this site is more associated with Bossa Nova music, is SOS Mundo, the memorable No Love, and Várias Vidas. Yes, No Love is the standout, the one that even rappers who dislike him give him props for, but SOS Mundo, an exposé into the failures of society, and Várias Vidas, in which he chronicles the doomed life of his friends that couldn’t give up on a life of crime, are excellent examples of “Hip-Hop Tuga” at its finest. But the most iconic song on this album remains "Dia de Um Dread de 16 Anos" (A Day in the Life of a 16 year-old Thug), a 10 minute sojourn into a nightmare of despair, crime, and drugs.

SOS Mundo
No Love
Várias Vidas

Halloween, o homem que sacudiu-me da minha letargia e fez-me escrever no Lounge depois de largas semanas de ausência.

Um dos (vários) buracos que tenho no meu conhecimento da música lusófona é a minha falta de conhecimento profundo do hip-hop Português própriamente dito. Oiço nomes por alto – Da Weasel, Sam the Kid, Mind da Gap – mas nunca explorei com dedicação as suas músicas. Já com o hip-hop angolano não perco um álbum de todos os artistas que aprecio, já ouvi quase tudo que há para ouvir do moçambicano Azagaia, e aos poucos vou conhecendo melhor o hip-hop brasileiro. Mas quanto a Portugal, sou um zero à esquerda.

Mas há um rapper Português em particular cujo nome oiço falar há vários anos. O meu primo Anderson, o mesmo rapaz que me introduziu ao Valete  falou-me de um rapper ‘estranho’ mas muito habilidoso que respondia pelo nome de Halloween. Um rapper que era diferente de todos os rappers que ele ouvia na altura. Por qualquer razão e não obstante a sugestão do meu primo, tive pouco interesse em ouvir as músicas do Halloween na altura. Alguns anos depois o Halloween foi para Luanda para delírio do público lá, e mesmo assim eu nada.

Tudo mudou quando estive em Lisboa recentemente. Estava com amigos, entre eles um rapper lusófono, e surgiu uma discussão acalorada sobre os méritos (ou não) do Halloween. A certa algura os dois amigos concordam que sim, mesmo discordando do valor do Halloween, podiam os dois acordar que a música No Love (incluída acima) era uma coisa rara, das melhores músicas de hip-hop Tuga que ambos tinham ouvido. Tocaram-na dos speakers e foi assim que ouvi o Halloween pela primeira vez. No Love foi a minha introdução ao universo peculiar do Halloween.

Foi como se um bichinho tivesse me mordido. Ando a ouvir o Halloween há dois meses, quase todos os dias. A tentar perceber as letras, a sentir-lhes, a acompanhar um ritmo das rimas, a conhecer o homem pela sua escrita. O Halloween, nascido em Bissau como Allen Pires Sanhá e também conhecido como Allen Halloween ou Bruxa, é completamente diferente de qualquer outro rapper lusófono que já ouvi. E no mundo do hip-hop de hoje, em que rappers parecem ser sósias um dos outros, isto é positivo. É difícil descrever o seu som, mas posso dizer que é do rap mais cru, real, e um tanto quanto radical (fiel às raízes), mas ao mesmo tempo consciente e introspectivo, que eu jamais ouvi. Num som está a rimar sobre roubar dinehiro duma velhota, no outro está a alertar aos mais jovens que a vida do crime não compensa. Pelo que ouvi, o mano é um tanto quanto anti-social e introvertido, e tem uma maneira muito dele e muito honesta de encarar a sua vida, sua e da sua crew. Assume o que é, sem pedir licença a ninguém. Nota-se que estamos perante um homem que viveu o que relata e é um producto dos piores bairros de Lisboa, os bairros de miséria onde habitam imigrantes africanos constantemente marginilazidos pela sociedade.

Pelas suas entrevistas e pelas suas rimas o Halloween conta uma história de marginalização, drogas e crime, e ouve-se a dor, a angústia e a raiva na sua voz. Mas em alguns sons o mano também demonstra um certo sentido de humor. A maneira como ele voca é impar...a performance dele no No Love é particularmente memorável. Até agora ainda só ouvi o seu primeiro álbum, o Projecto Mary Witch (2006) e entre as músicas suficientemente “calmas” que posso partilhar aqui neste espaço, já que vos habituei a bossas e reggaes inofensivos, estão SOS Mundo, No Love, e Várias Vidas. Oiçam a letra com atenção. Oiçam cada música várias vezes, com calma. E quando terminarem, procurem ouvir “Dia de um Dread de 16 Anos”. É um pesadelo de 10 minutos mas talvez dos sons mais icônicos do mano.

Saturday, March 3, 2012

Caipirinha Lounge Interview: Grande Entrevista à Luaty Beirão

Ikonoklasta. Brigadeiro Matafrakuxz. 1000iSegundo. Nkwa Kobanza. Os nomes artísticos são vários, mas o nome do homem é só um: Luaty Beirão. Esta entrevista foi anunciada há quase um ano, mas desde lá pra cá tanto o homem como o artista foram catapultados uma notoriedade imprevisível naquela época. Por volta desta altura no ano passado, o Luaty subiu ao palco num concerto do Bob da Rage Sense e falou o que lhe ia na alma. Desde então, foi preso no dia 7 de Março, levou surra em diversas manifestações e, por mais que tente negar o contrário, tornou-se um dos símbolos da crescente juventude angolana inconformada com o rumo do país. Mas antes de tudo isso, o Brigadeiro é um músico polivalente, participante em diversos projectos culturais e musicais em Angola e Portugal. As perguntas e respostas que se seguem permitem-nos conhecer um pouco mais tanto o homem como o artista. Boa leitura.

As Origens 

"Repara que eu falo de underground como sendo a única coisa digna de referência, porque o resto para mim é Hip Pop, eventualmente fazem temas “giros”, mas não os considero ser hip hop só porque rappam."

Caipirinha Lounge - Como surgiu a sua paixão pelo hip-hop? 

Luaty - Antes de 94 eu não tinha a perceção da existência de um movimento, de um estilo de um género musical ou cultura que me fascinasse no seu todo. Já tinha tido contacto com o Hip Hop através do Turbo (um breaker que rebentava tudo num filme que passou na TPA, convenientemente intitulado “Breakin'”) e, por mais incrível que possa parecer, com um disco de vinyl dos Breakmachine que o meu pai e o meu avô tinham, não sei se compraram por engano ou se estavam a tentar estar a par do progresso musical :). Mas eu era muito novo e não conseguia ligar as coisas à uma cultura específica, também por serem fenómenos esporádicos. Terão sido os meus primos que residiam em França, numa das suas férias de verão na casa da minha avó, que me “batizaram”, martelando-me constantemente com Cypress Hill, House of Pain, Gangstarr, Nas, Snoop Dogg, ao que eu retorquia tocando-lhes o Nevermind, Use your Illusion, enquanto jogávamos supernintendo.

Quais foram as suas primeiras grandes influências no hip-hop mundial?

Ainda antes dos meus primos chegarem um colega gravou-me o disco “Da Bomb” dos Kris Kross numa k7, que veio a ser numerotada 1 com o lado B sendo preenchido já pelo primeiro grupo que me convenceu no meio de tantos que viria depois a considerar grandes: House of Pain – Same as it ever was foi o álbum. Adorei a mistura do rap agressivo com heavy metal, pois estava a sair de uma fase Guns n Roses, Nirvana. Então foi assim: House of Pain, Nas, Dr. Dre, Snoop Doggy Dogg, Gangstarr, Blackmoon, De la Soul, Funkdoobiest, Cypress Hill. Mais ou menos isso, teria de olhar para as minhas primeiras k7's de novo.

Quando decidiste que querias fazer parte do hip-hop?

Na verdade, as respostas que te estou a dar até aqui estão todas na trilogia “Vindimas” do mp3chos Ikonodamus que pode ser encontrado para download gratuito online.

Como encara o hip-hop em Angola e como descreve a sua evolução?

Sinceramente eu acho que o Hip Hop em Angola tem crescido, amadurecido, subido relaxadamente a escadaria, degrau a degrau. Como em todo o lado, os apressados acabam por tropeçar, a fama consome-se rápido tipo fósforo, os apetites e os gostos das pessoas são voláteis e ontem batia comercial, hoje é o underground que é mais procurado. Hoje tens um festival de uma grande marca com nomes quase exclusivamente do underground/consciente (Kid MC, Valete, MCK) quando a lógica diz que esses festivais funcionam com música xunga e superficial. Isso introduz um novo elemento desafiador para a música “underground”: o mainstream. Isso fez com que muitos artistas começassem a preocupar-se mais com a sua imagem, em ter uma estratégia de marketing, ou seja, preocupações normalmente associadas a artistas que se levam a sério. O underground levou anos a apurar, a levar a sério a qualidade da gravação, a aceitar que ter o flow fora de tempo não é ser underground, é simplesmente não ter noção rítmica. Levou tempo, levou muito investimento de bolso próprio, edições de autor, independentes, a aparição de talentos como o Denexl para que outros se esforçassem mais em lapidar o seu metal precioso em estado bruto. Naturalmente alguns começaram a aceitar que deveriam dedicar-se exclusivamente à produção e hoje temos produtores de alta qualidade no nosso panorama hip hopiano. Sinto pena que os outros elementos não sejam tão explorados, não conheço pessoal a investir em pratos e vinyls para ser DJ, os grupos de break começam agora a aparecer um pouco mais, mas também não duram muito tempo e têm de vender o seu talento para programas televisivos dançando por cima de músicas nada dignificantes para a cultura. Grafiteiros são ainda mais raros, o que considero ser uma tristeza, pois fica difícil dizer que exista um MOVIMENTO HIP HOP, pelo menos um que seja sólido. Ainda assim, tenho de considerar que cresceu-se MUITO. Repara que eu falo de underground como sendo a única coisa digna de referência, porque o resto para mim é Hip Pop, eventualmente fazem temas “giros”, mas não os considero ser hip hop só porque rappam.

Como encara o hip-hop no mundo lusófono em geral? 

Teve dias de glória, continua a ter coisas de muita qualidade, mas sinto-me orgulhoso de ter testemunhado o nascer da aceitação da língua como sendo adaptável ao ritmo rap e das músicas dos folclores nacionais dos respetivos países incorporadas nas bases musicais que cunhariam os nossos raps com uma identidade indelével e inalienável. Já me emocionei a ouvir temas em português, feitos por portugueses, angolanos, brasileiros, moçambicanos e acho que isso é sinal que, nos meus critérios, há coisas de muito elevada qualidade. Por acaso, hoje em dia já perdi o interesse em seguir com atenção as novidades e as inovações, preferindo esperar que mas indiquem. Hoje oiço muito mais música e muito mais diversificada por isso há certo tipo de rap que rapidamente me aborrece por me parecer repetitivo, sem história. 


E como encara a sua evolução a nível mundial?

Eu continuo a ouvir muito hip hop vindo dos 4 cantos do mundo (que por ser oval não tem propriamente cantos), de muito boa qualidade. A ideia que o hip hop está uma merda é falsa, só sustentável pelo que é publicitado como sendo hip hop mas que não passa de hip pop, sem alma, sem conteúdo, sem interesse, sem sentido. Fast-food music para pessoas formatadas e pré-programadas para paparem aquilo, entrando mais na definição de pop do que outra coisa qualquer, tendo apenas o revestimento em rap. Mas há os Little Brother, os Reks, os Jedi Mind Tricks, os The Roots, os Blu, há tanta coisa boa ainda exaltando os mesmos sentimentos que me atraíram inicialmente para o rap/hip hop que tenho de dizer que ele está bem e de saúde! Depois há os novos géneros que estão a aparecer como ramificações do hip hop ou claramente inspiradas por ele e se calhar isso seria mais adequado para abordar nesta resposta, mas ia alongar-me muito.

O Homem e a música 

"Sinceramente, não me importa nem um pouco o apoio e o reconhecimento. A minha atividade artística é quase como a minha catarse pessoal, a minha maneira de exorcizar as minhas angústias, as minhas dúvidas, as minhas alegrias, as minhas opiniões, com quem quer que seja que queira ouvi-las."

O que é “música boa” para si?

Tudo o que me dê vontade de ouvir várias vezes, que me inspire alguma coisa, que me desperte alguma emoção, que me empurre a conhecer mais, que me desafie os preconceitos. Basicamente não se explica, só se sente.

Como músico angolano, pensas que tens o devido apoio e reconhecimento?

Sinceramente, não me importa nem um pouco o apoio e o reconhecimento. A minha atividade artística é quase como a minha catarse pessoal, a minha maneira de exorcizar as minhas angústias, as minhas dúvidas, as minhas alegrias, as minhas opiniões, com quem quer que seja que queira ouvi-las. Apoio aqui significa MPLA através de Bento Kangamba ou outro esbirro testa-de-ferro. Significa ter que se submeter às suas regras e caprichos e eu, não tenho ânsia de ser conhecido, não com esse tipo de ajuda que depois lobotomiza os artistas tornando-os marionetes nas mãos dessa gente sem escrúpulos. Acredito que, se a música for boa ou se as pessoas se identificarem intensamente com ela, viaja sozinha, sem rádio, sem televisão, vai no boca-à-boca com auxílio dos CD pirata. Não há muitas músicas minhas na pirataria então deduzo que não tenha ainda o dom da comunicação adequada com os consumidores do estilo no qual sou protagonista, mas também não estou a procura da fórmula mágica.

Já é possível viver só da música em Angola?

Da música só? Não sei, se calhar alguns raros artistas conseguem, mas ainda menos são os que conseguem sem comprometerem a sua integridade artística e limitarem a sua criatividade para não correr risco de ofender os patrões, para não morder a mão que os alimenta. Eu não vivo certamente da música e espero nunca depender dela para comer.


Com que idade começou a fazer música?

13, 14 anos.

Descreve-nos Ikonoklasta como artista.

Anti-dogmas, curioso, explorador, “tou-me a cagar, faço o que me der na venta”, preocupado com o mundo, atormentado, alegre, esquizofrénico, auto-crítico, palerma, melómano.


E como homem?

Anti-dogmas, curioso, explorador, preocupado com o mundo, atormentado, alegre, esquizofrénico, auto-crítico, palerma, melómano, chato, impossível de aturar, eterno ignorante buscando saber, saturado com a estupidez suicida do ser humano. :)

Explique-nos as suas quatro personagens: o Ikono, o Nkwako Mpanza (sp?), o Brigadeiro Matrafrakuxz, e o irreverente 1000i. Como surgiram e o que representam? 

Brigadeiro Mata-Frakuxz foi o primeiro e surgiu por necessidade pessoal de ter um nome em português, contrastando com a maioria que optava por pseudónimos em inglês. É um nome de “mc chateado”, pois nos meus primórdios focava-me sobretudo em rap de pugilismo verbal, cascando em todos que considerasse serem fracos. Isso vai mudando com o tempo e com a idade e achei que soava muito mal fazer música mais introspetiva com um nome tão duro. Apercebi-me que não era obrigado a vincular-me a pseudónimos, muito menos exclusivamente, que para esse tipo de prisão toponímica bastava-me o nome de registo, então arranjei um segundo pseudónimo e mais outro, para adequá-los ao tipo de abordagem de cada tema que escrevia. Na verdade, o irreverente e arrogante personagem é o Mata-frakuxz, que se acha com autoridade para definir o que é bom ou mau e impô-lo aos outros. O 1000iSegundo é na verdade o personagem que conta histórias, que podem ser alegres, tristes, ou algures entre uma e outra. O 1000i será portanto o personagem do Puzzle Sonoro ou do Cupido Bêbado por exemplo. Eu simplesmente gostei da maneira que encontrei para escrever “milisegundo” por isso o nome :). Cheguei a esse ponto de safodismo, de adotar nomes só porque me pareciam engraçados. O Nkwa Kobanza aparece da necessidade de ter um nome em língua nacional. Escrevinhei num papel uma lista de nomes em português que pedi ao MCK para levar à mãe dele e traduzir para kimbundu e gostei da sonoridade desse: Nkwa Kobanza que vinha traduzido em frente de “homem que pensa, homem que reflete, pensador”. Esse é o meu personagem introspetivo, por exemplo do Se eu Criasse ou do Atormentado.

Se Eu Criasse

O Ikonoklasta aparece curiosamente depois de todos estes pseudónimos para ser o pai de todos os personagens, o que todos engloba na sua definição, daí se ter tornado o nome principal. Estava a procura de uma palavra no dicionário e a palavra “iconoclasta” estaria algures em baixo e chamou-me a atenção. Quando li o significado pensei: “mas isto sou eu!”

Conjunto Ngonguenha in Luanda International Jazz Festival
Photo by Massalo
Como surgiu o relacionamento com MCK, Keita Mayanda, e o resto do Conjunto Ngonguenha?

Foi algo natural, todos gostávamos do mesmo, acabámos por desenhar esse destino de eventualmente nos cruzarmos. O MCK conheci-o ainda muito mocinho, quando tentava andar e vestir-se como um rapper, mas já tinha qualquer coisa de único que saltava à vista desarmada, destoando daquele look forçado. Carinha laroca e corte de cabelo com o logotipo da Wu-Tang, ficava à saída do programa de Hip Hop que tinha com o NK na LAC (A Era do Hip Hop) e fazia freestyles. Entregou-nos uma k7 com o primeiro som que lhe conheço e passámos no ar. Por alguma razão o microfone ficou aberto e o MCK, no pátio da rádio, ouviu-me dar gargalhadas com algumas das hilariantes linhas do som e na altura o pessoal não ia muito com a minha cara, acho que ele deve ter sido levado a pensar que ria de estiga e não de estar genuinamente divertido. Desde 96, 97 que nos conhecemos portanto. Já lá vão mais de 10 anos. O Leonardo conheci também através do NK e sempre o achei um figurão, super engraçado, positivo e muito boa energia, alguém de bom para se ter por perto. Na altura vivia na África do Sul e gravou um som que nos kuyou bwé, quando ainda tinha o nome de “Cão Leão”. Depois saíu o Basicamente Simples e nessa altura já nos íamos cruzando e intrusando mais vezes. O Condutas, foi meu colega no Colégio Elizângela, nunca imaginei que ele fosse dar para um hip hop nerd e um produtor tão talentoso. Só anos mais tarde, quando o Keita Mayanda foi viver para Portugal é que voltámos a restabelecer contacto e ele enviou-me cenas dele e do seu grupo Nova Trova. Depois também os sons que ia fazendo com o Keita lá e, pronto, recrudesceu a nossa amizade. Ngonguenha foi o lógico e inevitável passo a seguir, a celebração da angolanidade de 4 pessoas que se admiravam mutuamente e que inspiraram surtos de criatividade uns nos outros. O Keita também só o conheci REALMENTE nessa altura, em 2002, mas já era fã dele, dos tempos em que ainda se chamava Revolucionário, membro do meu grupo preferido de então Os Filhos da Ala Este.


Porquê a sua retirada do grupo [Conjunto Ngonguenha]?

Cito o título de um disco do José Mário Branco: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Só posso dizer que as nossas rotas artisticas colidiram, por diversas razões, que tinham a ver com as aspirações e as ambições de cada um de nós. A vida pessoal/profissional também afetou a maneira como se encarava a música e apercebi-me com muita tristeza que já não estávamos em sintonia. Finalmente, restava-me aceitar isso como uma fatalidade própria da vida e agarrar-me as coisas bonitas que criámos juntos. Gosto muito do segundo disco, está mais “profissional”, a energia está lá na mesma, as músicas são muito boas, mas não consigo deixar de sentir um travo amargo na boca por no final do processo as coisas terem se revelado de maneira tão evidente e avassaladora, ao ponto de causar a rutura. Por isso o primeiro disco é mais especial para mim e resume-me melhor como artista e como pessoa, é mais à toa, mais despenteado, mais desarrumado, mais despreocupado com normas e atropelando inclusivé algumas.

E influências musicais, para além do hip-hop?

A lista é enorme. Checkem o meu blog para ter algumas luzes acerca da diversidade do que me inspira e ainda assim só ficarão com uma visão limitada, pois aquilo é um de muitos galhos de uma árvore frondosa.

Quais são os seus artistas lusofonos preferidos?

Sam the kid, Valete, XEG, Ary dos Santos, Dealemma (nos primórdios), DJ Mpula, Saramago, José Mário Branco, Ricardo Pereira (do Gato Fedorento não o da novela), Mia Couto, Pepetela, epá brother, a lista é tão longa e errática que iria sempre ficar incompleta, ou pelo menos obrigar-me a pensar durante dias e eu já te estou a dever esta entrevista há quase um ano :)

Algumas das suas músicas têm um forte teor psicológico, social, e político (Conspiração dos Moskitos, Efeméride do Sékulo I e II, Kamikaze angolano, etc) . Como surgiram as ideias e as inspirações destas música?

Efeméride do Sékulo veio diretamente dos acontecimentos de 11 de Setembro. Nunca engoli aquela história do Bin Laden mandar tanta coisa abaixo num só dia. Debrucei-me sobre esse episódio e devorei as notícias que iam saíndo, acabando por me inclinar para a teoria da conspiração: 911 foi um trabalho de dentro! Daí as duas versões dessa música. O Kamikaze Angolano foi o meu primeiro grito de: “BASTA! Aconteça o que acontecer, tenho de fazer isto!”. Foi uma homenagem ao Cherokee, o jovem assassinado pela UGP por estar a cantarolar uma música do MCK. A Conspiração dos Moskitos foi um estalo. Estava a ouvir aquele instrumental com sample do Fela e fiquei a tentar pintar um quadro na minha cabeça, pensando na coisa mais mirabolante possível para adequá-lo ao instru. Lembrei-me de uns insetos que tinha na casa do meu pai em Luanda que ele sempre me disse serem inofensivos, daí ter achado que seria um tema absurdo o suficiente para inventar uma história e foi saíndo. Um pouco como nasceu o Cuka também.

Kamikaze Angolano

Batida!
Faz parte de vários projectos culturais e musicais, incluindo a Fazuma e Batida. Como surgiu a sua participação nestes projectos, e porquê? 

Batida é um projeto DJ Mpula/Fazuma. Fazuma é um coletivo de artistas que primam por critérios de pureza e beleza estética artistica com os quais me identifico, daí eu ser um membro da família. Estou com eles desde 2004/2005, justamente depois de ter saído a Conspiração dos Moskitos Inofensivos e o Ngonguenhação que foi o que chamou a atenção do Pedro, o cérebro da Fazuma. Desde o nosso primeiro encontro que as coisas aconteceram espontâneamente e daí em diante tem sido várias produções em conjunto, incluíndo o mambo tipo documentário É Dreda Ser Angolano. Porque sim, gosto deles, identifico-me com eles, sinto-me um deles, é natural :)

Trabalhou também com artistas diversos no universo da música lusófona, como os Terrakota e Cacique ’97. Fala-nos um pouco sobre o que o levou a cantar com estes ilustres.

Gosto bwé da música deles e aparentemente eles viram alguma coisa na minha que complementava as deles e convidaram-me. Mostraram-me os temas e/ou instrumentais e eu adorei-os. Tinha de subir nos mambos. Como disse antes, se eu gosto, não vou avaliar se é hardcore, softcore, punk, drum n bass, kizomba, kuduro, faço e pronto! Foi uma experiência enriquecedora, sobretudo ter escrito uma letra para Terrakota que estava mega-receoso de não ser musicável, pois só estou habituado a escrever raps, mas eles gostaram tanto que não só musicaram com mestria, como acharam que deveriam fazer dela o single de apresentação do disco e um dos clips mais fortes que já vi feitos na tuga. Logicamente que não posso deixar de sentir uma ponta de orgulho, já era fã dos Terrakota há uns anos.

Dos álbuns e mp3chos que já lançou, qual o seu preferido, e porquê?

Não tenho um preferido. São todos meus filhotes :)

E a sua música preferida da sua autoria (só se for possível responder tal pergunta)?

Não é possível :)

Falemos um pouco sobre cultura. Quais são para si os pontos fortes da cultura angolana?

Mano, para dizermos que existem pontos fortes é preciso aceitar que existem pontos fracos e a cultura é sempre subjetiva, há quem aprecie, há quem repudie segundo a evolução dos valores morais e dos conhecimentos científicos. Logicamente que hoje em dia podemos considerar a excisão como uma prática cultural hedionda e repugnante, mas se foi abraçada por partes tão vastas do nosso continente (sobretudo na costa oriental, a mais influenciada pela cultura/religião islâmica) significa que houve uma altura em que essa prática era vista como benéfica. A maka agora é inverter a mentalidade que se sedimentou ao longo dos séculos, mas isso é universal, os portugueses e os espanhóis resistem à pressão das associações de defesa dos animais e à opinião pública em geral para continuarem com as touradas. Tenho tendência com a idade para apreciar mais o folclore e a pureza do que conseguiu resistir ao tufão devastador do progresso, como a escultura tradicional (a mais vastamente documentada é a Tchokwe), as cerimónias rituais de passagem, a dança do xinganje ou os modos de vida dos povos pastorícios do planalto centro/sul. Infelizmente o olhar que temos sobre essas culturas limita-se ao sobranceirismo algo paternalista de quem olha condescendente para uma cultura inferior e, para que não piore ainda mais a minha condição de preconceituoso, devo aceitar de bom grado incluir-me nesse grupo, pelo menos até me mexer do meu sofá e das páginas de livros onde busco esse conhecimento, despir-me dos meus pudores e ir passar um tempo com os herero, com os busquímane, apreciar de forma mais completa o que estou a dizer para que não seja só “algo bonito de dizer”.

O que mais o faz sentir-se orgulhoso de ser angolano?

Os angolanos, sobretudo os mais humildes que são uma inspiração permanente quando me lembram com os seus mais largos sorrisos que, na escala das coisas más, as que me sucedem são insignificantes, obrigando-me ao exercício de relativização, ensinando-me o valor das coisas simples.

Quais são as tuas influências literárias? 

Não sei responder a isto. Não leio tanto assim e não me agarro a autores. Do autor que escreveu o meu livro favorito por exemplo não li mais nenhum outro título. Leio sobre os assuntos mais diversos, sobretudo política, mas há tantos autores que não consigo restringi-los a um top. Dentro do universo dos romances gosto bastante do que escreve o Pepetela e o Mia Couto (deste último leio também diversos artigos que têm invariavelmente o condão de me maravilhar).

A sociedade 

"O crescimento do PIB não se reflete no dia-a-dia do cidadão comum, tem servido para desalojar pessoas para cascos-de-rolha sem reparações convenientes, dando lugar à zonas nobres no centro de onde têm brotado autenticos monumentos fálicos atestando o machismo da sociedade africana e a estupidez congénita da sua elite complexada que tenta a todo custo emular o ocidente que diz desprezar."

O que achas dos valores e padrões morais da juventude angolana?

Perdidos, raptados por uma classe política que promove e institucionaliza a corrupção e a imoralidade, encoraja todos os defeitos possíveis e imaginários e reprime quem ouse ser diferente.

Como encaras a sociedade angolana em geral?

Adormecida, zombificada, apática, cínica.

Depois dos acontecimentos do 7 de Março e 2 de Abril tornou-se uma figura bastante importante e inspiradora para muitos jovens angolanos, e uma peste para o regime ao ponto de contactarem a sua família com mensagems ameaçadoras bem como outras acções de repúdio. Alguma vez pensou que a sua música e as suas intervenções como homem e músico atingiriam estas dimensões?

Já receei que as coisas fossem acontecer mais cedo e de forma mais catastrófica. Quando lancei a música Kamikaze Angolano em 2004, fiquei agradavelmente surpreso com a falta de reação, não senti represália de forma alguma, não tinham cordas para me cortarem, eu nunca contei com airplay na rádio, nem com convites para mega-eventos patrocinados pelos suspeitos do costume. O show do Bob foi a exceção pois o mano MCK estava envolvido na organização e sugeriu o meu nome. O timing é que fez com que as coisas fossem amplificadas para aquela escandaleira que viste. Já tinha cantado o Kamikaze ao vivo tantas vezes antes, já tinha mandado caralhadas para esses energúmenos que nos desgovernam, mas foi o contexto que provocou a onda de choque e retaliação. Sinceramente, por já ter feito apresentações similares antes, não pensei que fosse dar no que deu, mas já que deu, agora só resta assumir barulho!

Quais são as tuas ideias acerca do desenvolvimento socio-econômico de Angola?

As minhas ideias ou o que eu penso? As minhas ideias envolvem o rompimento completo com o conceito “tradicional” de Estado-Nação, mas isso seria contra-corrente com o movimento de suicídio coletivo adotado pelo mundo moderno que mesmo informado da efemeridade do recurso que permite este estilo de vida poluente, continua a desejar aumentar o ritmo de consumo, como se as bóias de salvação fossem aparecer de repente no momento que se der a hecatombe. Mesmo seguindo o modelo atual do liberalismo económico acredito estarem a cometer-se erros de palmatória quando se descura a saúde e a educação de forma tão grotesca como tem sido apanágio dos nossos líderes. Eles só o fazem porque podem permitir-se o luxo de se irem curar fora quando estão doentes. Acho que o facto de uma primeira-dama meter o filho numa escola estrangeira argumentando que “com a educação não se brinca” é sintomático. O crescimento do PIB não se reflete no dia-a-dia do cidadão comum, tem servido para desalojar pessoas para cascos-de-rolha sem reparações convenientes, dando lugar à zonas nobres no centro de onde têm brotado autenticos monumentos fálicos atestando o machismo da sociedade africana e a estupidez congénita da sua elite complexada que tenta a todo custo emular o ocidente que diz desprezar.

Qual é a avaliação que fazes acerca destes dois partidos tão influentes no historial deste país?

Estás a falar certamente do MPLA e da UNITA? Sinceramente, como jovem, estou farto dos dois. Um faz as piruetas mais bandeirosas para conservar o poder e o outro faz muito pouco para contrariá-lo.

Qual a sua opinião acerca do actual clima politico do país?

É um período de transição que podia ser mais célere se todos os que têm uma pinga de consciência tomassem a dianteira e assumissem que precisamos de uma rutura. Infelizmente a nossa classe média/alta é composta essencialmente por mauricinhos cagões que não querem arriscar o que já “conquistaram”. Pois é bom que façam uma retrospetiva para analisar o que foi que de facto conquistaram com o seu suor, pois, acredito, a maior parte não sabe sequer o significado de sacrifício e abnegação, nasceram em berço de ouro e sempre tiveram os pais abrindo caminho pela mata para que os principezinhos tivessem acesso a tudo sem pisar em espinhos. Eu sei disso, eu sou uma dessas pessoas!

Nós e os Outros

Tens fé no futuro de Angola? 

Se não tivesse podes crer que a esta hora estaria a descobrir a que desporto radical me dedicar, a viajar por Angola, a viver a minha vida não me inteirando da de mais ninguém. A minha fé ainda está intacta, apesar dos revezes e da força aplicada pelo papão para fazer desmoronar essa parede.

Por último...


Conjunto no Elinga
Photo by Samurai
5 MCs que respeitas, em Angola ou no estrangeiro:
MCK, Keita Mayanda, Leonardo Wawuti, Phay Grand, Halloween


5 artistas que ouves quase que diariamente
Já não faço isso há anos. Da última vez que me lembro de ouvir intensamente algum artista: Fat Freddy's Drop, Asa, Tété, Promoe, Keziah Jones.


Petro ou D’Agosto? 
11 Bravos do Maquis

Funge com moamba de galinha ou feijão de óleo de palma com cacusso? 
Se a escolha for só entre esses dois, inclino-me mais para o feijão, de preferência num futuro próximo sem nenhum animal a acompanhá-lo. Curto bwé o funji mas já não estraçalho um frango há alguns anos, por isso também só já com molho :).

Cidade preferida em Angola? 
Até agora Huambo, mas ainda me faltam conhecer bwé!

Livro preferido? 
Por mais cliché que possa soar: 100 anos de solidão de Gabriel Garcia Marquez. Música preferida de todos os tempos? Missão impossível!

Pensamento do dia: 
O silêncio torna-nos cúmplices!

Tuesday, December 20, 2011

Caipirinha Lounge Cinema: Good Guy, by SupaSound

For a long time I'd listen to this song in the early morning to help me wake up. It reminds me of the good times I spent in Cape Town and the friendships I made there, including this one with Amarildo, also known as SupaSound, and his brother, who also raps. They're among the very few Mozambicans I can call friends. I'm glad to be finally able to share this video with you now that it's complete, since I've been itching to post it for quite awhile but unfortunately had an incomplete version. I'll leave you with Good Guy by SupaSound...maybe you'll even relate to the lyrics.

Durante muito tempo ouvia essa música para me acordar, logo pela manhã. Faz me lembrar dos bons tempos que passei em Cape Town e das amizades que fiz por lá, incluindo esta com o Amarildo, também conhecido como SupaSound, e o seu irmão, que também é rapper. São dos poucos amigos moçambicanos que tenho. Fico feliz por finalmente poder partilhar este vídeo com vocês, porque já o tenho a bastante tempo e estava só à espera que os manos fizessem os arranjos finais! Fiquem então com Good Guy, by SupaSound. Talvez até concordam com a letra... 

Saturday, November 19, 2011

6tacool by Coca o FSM: So Sou Faray Ninguem Acreditou

This one's among the top three 6tacool jams by Coca so far. I've been playing it all week. What a surprise to hear him show off his rapping skills. Very well done, Coca. So Sou Faray is a jam for the late night.

So Sou Faray Ninguem Acreditou

Este som está entre os melhores dos que já ouvimos aqui feitos pelo Coca. Tenho tocado este brinde toda semana. Não sabia que o mano Coca tinha uma veia de rapper, mas deixou-a aqui bem patente. Granda som, este. Gostei.

Friday, October 14, 2011

Proibido Ouvir Isso: O Regresso do MCK // MCK's Return

This has been a long time in the making. The Lounge has been dormant for some time but these fresh, characteristically brilliant and irreverent MCK tracks shook me from my lack of time/writer's block/lethargy/what have you. If the excuse was lack of time...MCK, I'll make time for you.

It's been 5 years since MCK's last album, 'Nutrição Espiritual'. On 12 December 2011, the man is releasing his newest effort, 'Proibido Ouvir Isso' (translation: 'Listening to this is Prohibited). I still remember the first time I heard MCK - we were staying in my aunt's house in Luanda and my brother Paulo gave me his headphones so I could listen to "this cool new rapper that speaks the truth". At the time, my knowledge of rap consisted of SSP and their "Essa Keta me Mata", but my brother's tastes at that time were already in Black Company territory. Since then, MCK has been my among my favorite lusophone rappers and his voice has always been one of reason, no matter the threats he received, Cherokee's death, boycotts on Angola's radio stations (apparently playing MCK's music is subversive behavior) and the like. Nonetheless, he's stayed true to himself, and these latest efforts are a testament to that. And there's no reason to suspect that he's been out of form, because if his participation on Kid MC's O Porquê da Investida, he's as good as ever.

Below you have two single's that he's dropped in anticipation of his album release. A lot has happened in Angola over the last 5 years, and especially over the last 6 months, and it's evident on MCK's lyrics. '5 Anos de Ausência' chronicles the reasons for his absence and significant political events of the past 5 years, while my favorite, 'Nomes, rimas e palavras', is an intricate wordplay describing the power plays and the behing the scenes realities of Luandan politics. Can't wait for 18/12/2011.

5 Anos de Ausência
Nomes, rimas e palavras

Demorou mas foi. O Lounge tem estado desligado estes últimos dias mas estes novos brindes característicamente brilhantes e irreverentes do mano Kapa acordaram-me da soneca musical e mandaram para longe a minha "falta de tempo". Se a desculpa era falta de tempo, então, MCK, eu faço tempo pra ti.

Já lá vão 5 anos desde o último álbum do MCK, o 'Nutrição Espiritual'. No dia 12 de Dezembro deste ano ele lançará a sua mais recente obra de arte, 'Proíbido Ouvir Isso'. Nos dias de hoje em Angola, este título faz todo o sentido. Ainda me lembro da primeira vez que escutei o MCK: foi na casa da minha tia, em Luanda, e o meu irmão mais velho Paulo foi o 'autor do crime', ao me dar os headphones para eu ouvir 'Topikos pro artigo'. "Ouve esse mambo, esse gajo fala a verdade", disse o meu irmão. Ou pelo menos disse algo nestas linhas. Naquela algura o único "rap" que ouvia era "Essa Keta me Mata" dos SSP e coisas do género; já o meu irmão estava em andanças muito mais avançadas e já ouvia Black Company. Desde a primeira vez que o ouvi que o Kapa acabou comigo. Desde lá, tem sido um dos meus rappers lusófonos preferidos, sempre fiel a si mesmo não obstante as ameaças, a morte do Cherokee, os boicotes nas rádios angolanas, e por aí em diante. Nestas músicas é possível ouvir a sua honestidade intelectual. E nem há porquê pensar que o seu nível como rapper baixou...basta ouvir a parte dele no 'O Porquê da Investida' do Kid MC para perceber que o homem está em forma, melhor que nunca.

Acima estão dois dos singles do novo álbum do Katro. Muito tem acontecido em Angola nos últimos 5 anos (e ainda mais nos últimos seis meses) e as letras dele refletem isso. Não me irei alongar sobre isso, porque as músicas cantam por si. Basta carregar no play no '5 Anos de Ausência' para perceber do que falo. Mas a minha preferida das duas é mesmo 'Nomes, rimas e palavras', onde o Kapa literalmente brinca com os nomes dos nossos 'governantes' como se de uma bola se tratasse. A linha do Capapinha, da Espírito Santo, enfim, o homem é um poeta. E a última dica..."são poucos tipos que eu tiro o boné /  um desses sobreviventes é William Tonet." Mesmo a calhar...

Tuesday, August 2, 2011

Caipirinha Lounge Cinema: A Minha Geração, by Azagaia ft. Ras Haitrm

Enjoy this lyrically intense new release by Mozambican rapper Azagaia, who was jailed over the weekend by Maputo police officers but has since been released. As always, the lyrics are politically incorrect and inconvenient for politicians. Azagaia at his best.

Eis o novo vídeo do rapper moçambicano Azagaia, feito à sua maneira, com as líricas e atitude com que ele nos habituou. Foi preso em Maputo no fim de semana mas felizmente já foi posto em liberdade. Como sempre, a letra desta música fala sobre verdades inconvenientes. Afinal de contas, o mano Azagaia nunca teve papas na língua.




Friday, March 18, 2011

A Melhor Rima de Sempre, by Orelha Negra feat. Valete

Over the last few days I've been bopping my head to Portuguese group Orelha Negra's latest mixtape. Orelha Negra, literally translating to "Black Ear", will soon be talked about here in the Lounge - they are a very talented group that creates transcendent urban beats steeped in black musicality, including jazz, funk, soul, and hip-hop. The mixtape that I've been listening to is their latest creation, and in it they feature my favorite rapper, Valete, in 'A Melhor Rima de Sempre', literally translating to "The Best Rhyme Ever". It's one of Valete's most personal songs to date, an ode to his best friend and fellow rapper Adamastor in which Valete recounts his journey from a booed unknown to one of the most respected names in Lusophone hip-hop. The moody, sublime production work was sampled and created by Orelha Negra, and on it Valete spills his guts, calling on Adamastor to return to the hip-hop game. In the end, he asks where all the pioneers of Lusophone rap, in particular Portuguese rap, have gone.

Watch this space for a post on Orelha Negra...for now, stay with 'A Melhor Rima de Sempre'.

A Melhor Rima de Sempre

Durante os últimos dias tenho estado a ouvir a mixtape do grupo português Orelha Negra, que brevemente terá o seu próprio post aqui no Lounge. É um grupo que faz música transcendente inspirada na black culture, uma mistura potente de jazz, funk, soul e hip-hop, com resultados fenómenais. Entre tais resultados está esta tal mixtape, onde podemos encontrar uma das mais novas músicas do meu rapper preferido, o Valete, chamada 'A Melhor Rima de Sempre'. É uma das músicas mais marcantes e pessois do Keides Lima, uma música em que ele presta homenagem ao seu grande amigo e companheiro de hip-hop, o grande Adamastor. A produção da música, a cargo da Orelha Negra, é coisa de outro mundo, desde o começo ao fim. É coisa de quem percebe de sampling e mixagem. E a letra do Valete requer atenção para quem quer realmente saber a sua história no mundo do hip-hop, a história de um desconhecido que com muita perseverância, esforço e suor se tornou numa das principais personagens do hip-hop lusófono e não só.

Para breve, um post sobre o grupo Orelha Negra. Por agora, fiquem com A Melhor Rima de Sempre.

Thursday, December 16, 2010

O Incorrigível, by Kid MC

A couple of weeks ago I posted the teaser video for Kid MC's first single off his second album, O Incorrigível, fresh off his label Madtape's blog. Today I have the pleasure of sharing with you the full track, again thanks to Madtapes, and it is pure fire. Kid MC's first album was a huge success in Angola, and they say that sophomore albums are usually a slump, but I feel that O Incorrigível, out in Luanda's streets on December 18, will be even better. I'm judging that assessment on the stronger, more mature and more socially conscious lyricism emanating from the album's title track. Even if you don't understand Portuguese you can sense the man's indignation at the social conditions of his and my, our, country. The beat is pure class as well, and it's done by popular producer Raiva. Click play below and jam to Kid MC, Angola's hip-hop star in the making.

O Incorrigível

Umas semanas atrás postei aqui o teaser clip do track O Incorrigível, o primeiro single do novo álbum do Kid MC, do mesmo nome. Tanto o teaser como a track que agora torno disponível abaixo foram encontrados no blog Madtapes, paragem incontornável para aqueles que apreciam o hip-hop angolano. O Incorrigível é fogo. Pura e simplesmente. O primeiro álbum do Kid MC foi um grande sucesso em Angola, mas uma grande parte dos músicos mundiais não conseguem superar a força do seu primeiro álbum com algo mais substancial no segundo, sendo assim vítimas do chamado 'sophomore slump'. Dúvido que isto acontecerá com o Kid. Dia 18 de Dezembro foi a data escolhida para o lançamento do Incorrigível, na Praça da Independência. É perigoso julgar um álbum inteiro num só brinde e ainda mais antes de o ouvir, mas ouvindo O Incorrigível tenho a sensação que as rimas do Kid estão mais conscientes, mais maduras, mais polidas, mais indignadas em relação ao seu primeiro trabalho. Nota-se uma dedicação profunda. E o beat foi uma jogada de mestre, parabens ao Raiva. Carrega no play e sente o mambo...

Tuesday, November 2, 2010

Caipirinha Lounge Cinema: Diário do Incorrigível Pt. 01, by Kid MC

The video below presents you with a window into the burgeoning Angolan rap scene. Kid MC is one of the country's better rappers, a proven lyricist with an explosive flow and persona that's quickly developing a large fan base throughout the entire country and beyond. Many in Angola are starting to compare him to Valete, and it's obvious the latter's influence on the former. The video below is from Kid's producer, label CEO and serial blogger Samurai of Madtapes. Access his site for anything Kid MC-related, but mostly just groove to the rhythm below.

Kid MC's newest CD, O Incorrigível, will be released in Luanda on 18 Dec 2010. Judging from this short 1:52 min clip, it's going to be something worth listening to.




O vídeo acima dá-vos mais uma amostra da potencialidade do rap angolano. É terra fértil para mentes liricistas. No universo do hip-hop angolano, o Kid MC consegue ser uma personagem que se destaca da concorrência devido a sua grande capacidade de escrita e o seu flow e personalidade explosiva. Devido aos concertos que o mesmo promove em vários pontos do país a sua popularidade tem estado a crescer um pouco por todo território angolano. São várias as vozes que o comparam com o Valete, e para mim é nítida a influéncia do Keides Lima no Kid MC. O vídeo á cima é do website do Samurai, destino principal para qualquer assunto relacionado com o Kid. Chega de escrita, carrega no play e curte a mensagem do vídeo...interioriza a letra...

O Incorrigível sai às ruas no dia 18 de Dezembro em Luanda. Com base na letra e no conteúdo acima, o album promete...

Monday, August 23, 2010

Sei Lá, by Gabriel o Pensador

Seems like I'm still in a Gabriel o Pensador sort of mood. While Até Quando, featured here over the weekend, was an angry, rebellious, defiant call to arms, Sei Lá calms the mood considerably. It's the last track on the album Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo) and showcases a soulful, mellow, laid back Gabriel. Singing about love, no less. O Pensador is one of the finer Lusophone wordsmiths (just look at the name of the album) and in this song he's no different. The way his rap glides over this particular beat is effortless. Press play, feel the lyrics, lounge around and groooove...

Sei Lá

Ainda estou na onda do Gabriel o Pensador. Se Até Quando, destacado aqui no fim de semana passado, nos mostrou um Gabriel inconformado, zangado e rebelde, já o Sei Lá mostra um homem muito mais calmo, amoroso até. Sei Lá é o último brinde do disco Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo), e nele o Gabriel o Pensador está mais soulful, mais descontraído, mais relaxado. E a cantar de amor, ainda por cima. Acho do Pensador um dos mestres da língua portuguesa, adoro a maneira dele de brincar com as palavras (basta ver o nome do álbum) e nesta música confirma-se a sua veia de poeta. Ouve a letra com atenção. Carrega no play e aprecia a maneira que o seu rap desliza sobre o beat.

-Photo by Festivaldeinverno

Sunday, August 22, 2010

Até Quando? por Gabriel o Pensador

Gabriel o PensadorOnce in awhile (or more often than not, depending on your patience, your optimism), Luanda can become a difficult, bureaucratic beast. Or worse, a repressive concrete slum jungle full of contrast and contradiction. Once in awhile you'll cease to see the beauty of the Marginal, the serene view of Luanda as seen from Miramar, the way the São Miguel Fort lights up against the backdrop of the night sky. Once in awhile it gets to you: the injustice, the inequality, the crime, the police brutality. The corruption, the obscene display of ill-gotten wealth, the rampant unemployment, the kids that aren't in school, the omnipresent dust. The slums, the potholes, the increasingly paranoid, oppressive regime. But what gets me the most is the attitude. The mentality. And above all, the impassiveness of the people in the face of such avoidable adversity. Até Quando? (Until When?)

In the lusophone world we seem to share the same problems. Até Quando is a politically charged, socially conscious, call-to-arms anthem by Gabriel o Pensador, one of Brazil's brightest rappers. Though he's a rap artist in the traditional sense - Gabriel's raps are a lot more influenced by rock and popular Brazilian music genres than by anything else. Até Quando, from Gabriel's 5th studio album Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo) is a great example. For those who understand Portuguese, or can spot true talent when they hear it regardless of the language, and/or who live in Luanda and want to hear a song that vents for them, that expresses their frustration, give Até Quando a listen.

Até Quando?

De vez em quando (ou, dependendo do seu grau de paciência e optimismo, regularmente), viver em Luanda pode-se tornar um exercício difícil, um bicho burocrático de sete cabeças. Ou pior, pode significar vive numa repressiva selva de betão, cimento e poeira, repleta de contastes e contradições. De vez em quando, paras de ver a beleza da Marginal. A vista de Luanda à partir do Miramar deixa de te seduzir, e a maneira que a Fortaleza de São Miguel acende à noite já não te diz nada. De vez em quando, é difícil escapar a realidade por baixo da beleza. A outra Luanda. A da injustiça gritante, da desigualdade social, do crime, da brutalidade da polícia. A Luanda da corrupção, das obcenas amostras de riqueza conseguida de maneiras menos honestas, do desemprego avassalador, dos putos que não estão a estudar mas sim a vender cigarros, da poeira omnipresente. A Luanda dos musseques sem as mínimas condições de vida, das estradas cómicamente esburacadas, do regime cada vez mais paranóico e opressivo. Mas o que mais me espanta é a atitude das pessoas. Da sua mentalidade. E acima de tudo, do seu pensamento de "deixa-estar", de impotência, de preguica, perante tamanha desgovernação ou mesmo perante si mesmas. Até Quando?

No mundo da lusofonia, às vezes partilhamos das mesmas "mazelas", dos mesmos problemas. Até Quando é uma música politicamente carregada e socialmente consciente, um apelo ao nosso espírito de justiça, um hino à nossa dignidade como cidadãos e seres humanos. É da autoria do rapper brasileiro Gabriel o Pensador, um dos rappers mais inteligentes daquele país irmão. Se bem que ele não é um rapper do estilo ao que estão habituados, porque musicalmente as suas influências partem muito mais do rock e de estilos sonoros brasileiros do que o rap chamado tradicional. Até Quando, do seu quinto álbum de estúdio, Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo), é um exemplo da sua sonoridade. Para todos aqueles que vivem em Luanda e de vez em quando mergulham em tais frustrações, Até Quando é uma música que grita, que clama, que descarrega pro ti.

-Photo by Festivaldeinverno
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